Obra de Niemeyer em Corumbá está sem proteção legal, alerta arquiteto em livro
Publicação de João Bosco Delvizio reúne quase cinco décadas de pesquisa sobre edificações modernas de Corumbá que ainda aguardam tombamento oficial.
Divulgação
Um arquiteto corumbaense de 72 anos lança nesta sexta-feira, 28 de agosto, um livro que revela um dado incômodo: Corumbá abriga um conjunto expressivo de edificações da arquitetura moderna brasileira — incluindo uma escola projetada por Oscar Niemeyer — e nenhuma delas conta com proteção legal. O lançamento de "Ladeira do Porto Acima… Arquitetura moderna e memória de Corumbá", do arquiteto e urbanista João Bosco Urt Delvizio, acontece às 19h no Museu Casa do Dr. Gabi, na Rua Cuiabá, 1.181, Centro, com entrada gratuita.
A publicação chega em um momento em que Corumbá vive a proximidade da candidatura de seu Pantanal à Patrimônio Mundial da Unesco, o que torna ainda mais urgente o debate sobre o que a cidade preserva — ou deixa de preservar — dentro de seus próprios limites urbanos. O livro não é um inventário técnico, mas uma investigação sobre como as construções moldaram a identidade coletiva da cidade ao longo da segunda metade do século 20.
A escola de Niemeyer que ninguém protegeuEntre os exemplos levantados por Delvizio está a Escola Estadual Doutor João Leite de Barros, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e que, segundo o autor, ainda não possui qualquer amparo legal que a proteja de demolições ou descaracterizações. A situação exemplifica um problema mais amplo: o acervo moderno de Corumbá ficou historicamente à margem das políticas de preservação, que tendem a valorizar apenas o patrimônio colonial e imperial da cidade portuária.
Delvizio não propõe um tombamento imediato de todos os imóveis, mas aponta referências para que pesquisadores, poder público e a própria comunidade possam dar continuidade ao debate. "Os diversos estilos arquitetônicos representam o pensamento e o comportamento de uma época e são bases da memória social. Dar continuidade às averiguações acerca do patrimônio arquitetônico de Corumbá é importante para averiguar o potencial histórico das suas áreas urbanas", afirma o arquiteto.
Quase cinco décadas de Corumbá contadas por quem a construiuNascido em Corumbá, Delvizio tem uma relação profissional única com a cidade: assinou o Portal de Corumbá, na entrada do município, nos anos 1990; coordenou a reurbanização do Porto Geral entre os anos 1990 e o início dos anos 2000; e desenvolveu o projeto do Plano Inclinado — o bondinho próximo à Ladeira José Bonifácio — na primeira década dos anos 2000. Ou seja, o autor do livro é também um dos personagens que ajudou a escrever a história urbana que ele agora documenta.
Esse duplo papel transparece no texto. "Percebo que iniciei esse trabalho como pesquisador, mas que, aos poucos, também me tornei uma espécie de personagem, uma vez que resgato lembranças da minha infância e redescubro minha relação com os edifícios modernos de Corumbá", disse Delvizio. A mistura entre memória pessoal e investigação acadêmica é, segundo ele, intencional: a arquitetura de uma cidade só faz sentido quando há pessoas que se lembram de vivê-la.
IAB-MS e CAU-MS bancam a publicação; FUPHAN apoiaA publicação é uma realização do Instituto de Arquitetos do Brasil — Departamento de Mato Grosso do Sul (IAB-MS), com patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul (CAU-MS) e selo da Life Editora. A Prefeitura de Corumbá, por meio da Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico (FUPHAN), também apoia a iniciativa — o que indica que o debate sobre proteção legal do acervo moderno pode ganhar tração institucional a partir do lançamento.
Para quem visita ou mora em Corumbá, o livro oferece um olhar diferente sobre ruas já conhecidas: a cidade que guarda o Pantanal também guarda Niemeyer, e talvez seja hora de começar a tratar os dois com o mesmo cuidado.
Fontes: PREFEITURA MUNICIPAL DE CORUMBÁ, IAB-MS