Larva-de-parafuso retarda reabertura da fronteira e ameaça boi de MS
EUA retomaram importações de gado mexicano pelo Arizona após mais de um ano de bloqueio, mas parasita detectado no Texas e Novo México acende alerta para exportadores brasileiros.
Divulgação
Os Estados Unidos reabriram nesta segunda-feira o porto de Douglas, no Arizona, para importações de gado proveniente do México — primeira brecha em uma proibição que durava mais de um ano e que foi imposta para conter a larva-de-parafuso, parasita que devora tecidos vivos de animais e humanos. A retomada é gradual: começou com 700 cabeças por dia na primeira semana, podendo chegar a 1.300 cabeças diárias nas semanas seguintes, segundo a Confederação Nacional de Organizações Pecuárias do México (CNOG). Para os pecuaristas de Mato Grosso do Sul, que disputam espaço no mercado americano, o movimento mexe diretamente com preços e volume de exportação.
A reabertura acontece em meio a uma situação ainda longe do controle. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) confirmou 46 casos de larva-de-parafuso no Novo México e no Texas — dois deles ativos no momento da publicação. O Estado de Chihuahua, no norte do México, acumula 183 casos desde julho, e Sonora registrou os primeiros dois casos confirmados na semana passada, ativando protocolos de emergência. A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, deixou claro que Texas não reabrirá tão cedo: "Não planejamos abrir nenhum porto no Texas agora, simplesmente porque é lá que está a verdadeira atividade", afirmou.
Como funciona a reabertura e o que vem pela frenteO USDA planeja avaliar a abertura de mais dois portos no Novo México — um em 30 dias e outro em 60 dias — que incluirão gado, bisões e cavalos. O protocolo foi acordado entre os dois países com base científica, e prevê a suspensão imediata da reabertura caso auditorias pós-abertura identifiquem aumento de risco em Sonora ou Chihuahua. Do lado mexicano, a ministra da Agricultura, Columba López, anunciou o reforço na dispersão de moscas estéreis — estratégia que impede a reprodução do parasita — nos dois estados fronteiriços mais afetados.
Se os pontos de passagem de Chihuahua forem liberados ainda no quarto trimestre de 2025, o México poderá exportar até 200 mil cabeças em 2026, movimentando cerca de US$ 420 milhões em preços de mercado americano. Para 2027, a projeção da CNOG é ainda mais ambiciosa: 1,09 milhão de cabeças, avaliadas em aproximadamente US$ 2,1 bilhões. São volumes que, se confirmados, exercem pressão direta sobre a fatia brasileira no mercado.
O risco sanitário que ninguém quer perto do PantanalA larva-de-parafuso (Cochliomyia hominivorax) é considerada uma das pragas mais destrutivas da pecuária. Erradicada dos EUA e do México nas décadas de 1960 e 1970, a praga ressurgiu na América Central e chegou ao norte do México em 2024. O parasita se instala em feridas abertas de animais — incluindo o umbigo de bezerros recém-nascidos — e pode matar um bovino adulto em dias se não tratado. A presença confirmada no Texas, estado que faz fronteira terrestre com o maior fluxo de gado americano, acende um alerta que vai além da briga comercial entre México e EUA.
Para o Brasil, e especialmente para Mato Grosso do Sul, o risco não é apenas de concorrência: é também sanitário por contágio indireto. O estado abriga o Pantanal, o maior rebanho bovino em área úmida do mundo, com animais que convivem em condições que favorecem feridas naturais — e, portanto, são altamente vulneráveis a esse tipo de parasita. O Ministério da Agricultura (Mapa) monitora a situação, e qualquer entrada da praga no território nacional representaria um colapso para o status sanitário que garante o acesso de MS aos principais mercados compradores de carne.
O que muda para Mato Grosso do Sul no mercado de carne bovinaMato Grosso do Sul é o segundo maior rebanho bovino do Brasil, com mais de 22 milhões de cabeças, e responde por parcela expressiva das exportações nacionais de carne in natura e processada para os EUA. A reabertura da fronteira para o gado mexicano, ainda que gradual, tende a aumentar a oferta no mercado americano a partir de 2026 e de forma mais intensa em 2027 — o que pode pressionar preços e reduzir margens para os exportadores brasileiros.
Frigoríficos instalados em cidades como Naviraí, Dourados e Campo Grande acompanham de perto esse movimento. No curto prazo, a escassez de gado nos EUA — que motivou a busca por carne brasileira e sustentou preços elevados — deve se prolongar até que o volume mexicano se normalize. Mas a perspectiva de 2027, com mais de um milhão de cabeças cruzando a fronteira norte, coloca pressão sobre a competitividade do boi sul-mato-grossense no médio prazo. O equilíbrio depende de quanto o México conseguirá avançar no controle sanitário — e de quanto o Brasil manterá seu diferencial de rastreabilidade e certificação.
O setor pecuário de MS observa o desfecho com atenção redobrada: uma reabertura acelerada sem controle efetivo da praga pode tanto contaminar o debate sanitário global quanto abrir janela para que o Brasil consolide sua posição como fornecedor mais confiável. A mosca, por ora, determina o ritmo de tudo.
Fontes: REUTERS, USDA