Milho de MS terá 20% menos produção e colheita mais lenta nesta safra
Com estoques globais em queda segundo o USDA e produtividade estadual abaixo do esperado, cotações do cereal ganham sustentação em Mato Grosso do Sul.
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A segunda safra de milho em Mato Grosso do Sul caminha para encerrar com produção 20,1% inferior à do ciclo passado, enquanto o mercado internacional recebe sinais adicionais de aperto na oferta. O relatório WASDE de agosto, divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), cortou projeções de estoques tanto nos EUA quanto no Brasil — e a combinação dos dois fatores tende a segurar as cotações do cereal nos próximos meses.
O cenário preocupa porque MS é um dos maiores produtores nacionais de milho safrinha, e qualquer redução expressiva na oferta estadual ressoa diretamente nos preços pagos ao produtor, no abastecimento da indústria de rações e, cada vez mais, no setor de etanol de milho que cresce no estado.
O que o USDA cortou — e por que isso afeta o produtor sul-mato-grossenseNo relatório de agosto, o USDA reduziu a produtividade estimada do milho norte-americano para a safra 2026/27, de 183 para 180,7 sacas por acre. Os estoques finais dos EUA recuaram de 1,790 bilhão para 1,653 bilhão de bushels. No plano global, o estoque final projetado caiu de 275,26 milhões para 274,66 milhões de toneladas. Para o Brasil especificamente, a revisão foi mais severa: a previsão de estoques finais na safra 2026/27 encolheu de 11,10 milhões para 10,10 milhões de toneladas — uma redução de um milhão de toneladas em um único relatório.
Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, os cortes do USDA chegam num momento em que o estado já enfrenta sua própria retração produtiva. "O que temos neste momento é uma combinação de fatores que tende a dar sustentação ao mercado do milho. De um lado, o USDA reduziu os estoques projetados nos Estados Unidos e no mercado mundial. Do outro, Mato Grosso do Sul deve colher uma safra menor, enquanto a colheita ainda está em andamento", avaliou o analista.
Área cresceu, mas produtividade despencou em MSOs dados do Projeto SIGA-MS e da Aprosoja/MS revelam uma aparente contradição: a área plantada na segunda safra 2025/26 chegou a 2,206 milhões de hectares, avanço de 3% frente ao ciclo anterior. Mais área, menos grão. A produtividade média despencou 22,4%, caindo para 84,2 sacas por hectare. O resultado é uma produção estimada de 11,139 milhões de toneladas, queda de 20,1% na comparação anual.
A colheita, que já alcançou metade da área monitorada no levantamento de 11 de agosto, avança com ritmo 6,4 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período de 2025. Chuvas irregulares, ventos fortes e episódios pontuais de granizo seguem como fatores de risco para o encerramento da safra. Ainda há campo aberto para revisões — para baixo ou para cima — dependendo das condições climáticas das próximas semanas.
Etanol, armazenagem e soja: o que mais está em jogo para MSAlém da menor oferta, o mercado de milho no estado enfrenta uma pressão estrutural crescente: a expansão da indústria de etanol de milho, que disputa a matéria-prima com exportadores e com o mercado interno de ração animal. Esse vetor de demanda adicional tende a apertar ainda mais o balanço estadual. A isso se soma um déficit histórico de capacidade de armazenagem em MS, o que limita a estratégia dos produtores de segurar o grão aguardando melhores preços.
A soja, por outro lado, oferece um panorama mais estável. O USDA manteve a projeção de 186 milhões de toneladas para a produção brasileira na safra 2026/27 e de 118 milhões de toneladas para exportações. Em MS, a oleaginosa encerrou a safra 2025/26 com 16,744 milhões de toneladas — crescimento de 19,1% sobre o ciclo anterior — e produtividade média de 60,40 sacas por hectare, alta de 16,6%. Segundo a Aprosoja/MS, sem mudança relevante na oferta global ou local, o preço da soja no curto prazo dependerá sobretudo de câmbio, frete e ritmo das exportações para a China.
O próximo relatório WASDE está previsto para 11 de setembro, e o SIGA-MS deve atualizar nas próximas semanas os dados sobre o avanço e o encerramento da segunda safra de milho. Os números definitivos da colheita serão decisivos para calibrar as expectativas de preço até o final do ano.
Fontes: APROSOJA/MS, USDA, PROJETO SIGA-MS