Ponte no Pantanal divide MT e MS: turismo contra, agro sul-mato-grossense a favor

Enquanto empresários de turismo de Mato Grosso temem a transformação da Transpantaneira em corredor de cargas, criadores de MS cobram a conclusão da obra para ligar os dois estados.

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Uma ponte de concreto sobre o rio Cuiabá, na altura do Porto Jofre, no município de Poconé (MT), está no centro de um conflito que divide os setores produtivos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. De um lado, empresários do turismo pantaneiro em MT rejeitam a estrutura com força total. Do outro, criadores e produtores rurais de MS pressionam o governo estadual para retomar as obras da MS-214 e viabilizar a ligação rodoviária entre os dois estados pelo coração do Pantanal.

O conflito ganhou contornos formais depois que as secretarias de infraestrutura dos dois estados — a Sinfra-MT e a Seilog-MS — assinaram um protocolo de intenções para estudar o corredor rodoviário. O documento foi suficiente para mobilizar o setor turístico mato-grossense, que se reuniu com o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso (Fecomércio-MT), Tião da Zaeli, para apresentar oposição formal ao projeto.

Turismo em MT vê na ponte uma ameaça à Transpantaneira

A principal preocupação de quem vive do turismo no Pantanal mato-grossense é que a ponte transforme a Rodovia Transpantaneira (MT-060) — hoje voltada ao ecoturismo e ao turismo de observação de fauna — em uma via de escoamento de cargas pesadas. Comunidades tradicionais, organizações ambientalistas e operadores de turismo já formalizaram essa posição em carta aberta, com três demandas centrais: manutenção do perfil turístico da estrada, realização de estudos de impacto ambiental antes de qualquer decisão e ampliação da participação social no processo.

O setor apresentou ao presidente da Fecomércio-MT propostas alternativas de integração regional — entre elas, a construção de uma estrada ligando Poconé a Barão de Melgaço e a conexão do distrito de Joselândia com Águas Quentes. Tião da Zaeli propôs elaborar um documento formal a ser encaminhado aos parlamentares que atuam na defesa do bioma e convidou o secretário da Sinfra-MT, Marcelo de Oliveira, para uma reunião de conciliação.

Setor produtivo de MS quer a estrada concluída

Em Mato Grosso do Sul, o cenário é inverso. A Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) se reuniu em junho com o secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Guilherme Alcântara de Carvalho, para cobrar a retomada das obras da MS-214, rodovia sul-mato-grossense que avança em direção à divisa com MT, na região de Porto Jofre. Para os criadores, a ponte é peça essencial de um corredor que reduziria distâncias e custos no escoamento da produção pecuária do estado.

A lógica econômica do lado de MS é direta: conectar fisicamente as regiões produtivas do Pantanal sul-mato-grossense ao eixo rodoviário mato-grossense abriria um caminho mais curto até mercados do Centro-Oeste e do Norte. O impasse, no entanto, esbarra precisamente no argumento que sustenta a resistência do turismo em MT: um corredor de cargas pesadas no Pantanal coloca em risco um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta.

O que está em jogo para Mato Grosso do Sul

Para MS, a questão vai além da ponte em si. A MS-214 é uma obra antiga e paralisada, símbolo das dificuldades de integração logística de municípios como Corumbá, Aquidauana e outras cidades do Pantanal sul-mato-grossense com o restante do estado e com MT. A retomada das obras representa, para o setor produtivo local, acesso mais ágil a mercados e redução de frete — variáveis críticas para a pecuária de corte, que responde por parcela significativa do PIB regional.

O dilema, porém, é real: o Pantanal brasileiro sofreu nos últimos anos com queimadas históricas e pressão crescente sobre sua biodiversidade. Qualquer infraestrutura de grande porte no bioma exige uma equação cuidadosa entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. A pressão dos dois lados — turismo em MT e agro em MS — deixa claro que a decisão sobre a ponte não será tomada sem embate político, e que o Pantanal, mais uma vez, está no centro de um debate que extrapola os limites dos dois estados.

Fontes: FECOMÉRCIO-MT, SEILOG-MS, ACRISSUL