Soja de MS enfrenta El Niño e crédito restrito; semente certificada vira aposta

Com margens apertadas e risco climático na safra 2026/27, produtores sul-mato-grossenses buscam na genética e no tratamento industrial de sementes uma defesa contra perdas.

Por

Divulgação

A decisão sobre qual semente plantar nunca pesou tanto para o sojicultor de Mato Grosso do Sul. Com a safra 2026/27 se aproximando sob a sombra do El Niño, crédito rural mais seletivo e margens que deixam pouco espaço para erro, a escolha da semente certificada deixou de ser rotina e passou a ser o principal movimento estratégico do produtor — é o que defendem especialistas e a AMSSOJA BRASIL, Associação dos Multiplicadores de Sementes de Soja do Brasil, em alusão ao Dia da Semente, celebrado em 21 de agosto.

O contexto que chega a MS é de pressão dupla. De um lado, o relatório Agro Conjuntura Céleres de julho de 2026 aponta que o El Niño deve ampliar o risco de perdas de produtividade, especialmente nas regiões do MATOPIBA — corredor que avança pelo cerrado e influencia diretamente a dinâmica de oferta que compete com a soja sul-mato-grossense nos mercados de exportação. De outro, os bancos e cooperativas de crédito operam com critérios mais rígidos, o que obriga o produtor a calibrar cada centavo do custo operacional da lavoura.

Quando a semente vale mais do que o insumo

Para o presidente da AMSSOJA BRASIL, André Schwening, a percepção do valor real da semente certificada ainda precisa avançar no campo. "Tudo começa na semente. Não há sojicultura sem semente de soja. É ela que impulsiona o crescimento da cultura por meio da genética, da biotecnologia e da inovação", afirmou. O argumento é direto: por trás de cada sacola de semente certificada há anos de pesquisa, testes de campo e validação genética — um trabalho que começa muito antes de o produtor decidir o que vai plantar. Em safras de margem apertada, escolher errado na largada pode comprometer o resultado inteiro da temporada.

Esse raciocínio encontra respaldo nos números de mercado. Mesmo com o ambiente econômico pressionado, a comercialização de sementes para a próxima safra já havia atingido cerca de 80% da demanda prevista no levantamento da Céleres — sinal de que o produtor, incluindo os de MS, segue priorizando qualidade no insumo-base mesmo quando corta em outras frentes.

Tratamento industrial de sementes cresce e chega à metade do mercado

Um dos movimentos mais concretos desse ciclo é a expansão do Tratamento Industrial de Sementes (TSI), que já responde por mais de 50% das sementes comercializadas no país, segundo dados da Céleres. A prática consiste em aplicar fungicidas, inseticidas e outros defensivos diretamente na semente antes da comercialização, protegendo a lavoura nas fases mais vulneráveis de germinação e estabelecimento.

O consultor de mercados agrícolas Enislon Nogueira avalia que o TSI se tornou um dos poucos caminhos para agregar valor dentro da cadeia de sementes num momento em que as margens de certificação estão comprimidas. "No cenário atual de margens reduzidas, agregar valor à semente é uma alavanca importante para o mercado, e o agricultor também reconhece o valor desse processo", disse. Para o produtor sul-mato-grossense, que em muitos casos opera em propriedades de grande escala e não pode se dar ao luxo de refazer plantios, essa proteção na fase inicial representa redução real de risco operacional.

O que está em jogo para o produtor de MS na próxima safra

Mato Grosso do Sul é um dos principais estados produtores de soja do Brasil, com produção relevante em municípios como Maracaju, Dourados, Sidrolândia e São Gabriel do Oeste. O estado já convive com a combinação que preocupa os analistas: custo de produção elevado, volatilidade cambial e agora o risco climático do El Niño. Nesse quadro, a semente certificada — com rastreabilidade, vigor comprovado e resistência a doenças — funciona como uma das poucas variáveis que o produtor consegue controlar antes de o grão tocar o solo.

A discussão vai além da safra imediata. A cadeia produtiva acompanha debates sobre a modernização da legislação de proteção de cultivares e o combate às sementes ilegais — problema que drena investimento em pesquisa e coloca em circulação materiais sem garantia de desempenho. Para o produtor de MS que precisa maximizar cada hectare diante de um mercado internacional mais competitivo, o uso de sementes não rastreáveis representa um risco que o ambiente atual simplesmente não comporta.

A mensagem que chega neste 21 de agosto é pragmática: em uma safra que promete pouco espaço para recuperar erros, a semente é o ponto de partida que define o teto de produtividade — e, portanto, o resultado financeiro de toda a temporada.

Fontes: AMSSOJA BRASIL, CÉLERES