Ponta Porã e fronteira do MS ganham plano conjunto de saúde com o Paraguai

Encontro realizado em Campo Grande fechou acordo entre os dois países para integrar dados, vacinas e combate a arboviroses na faixa de fronteira.

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A faixa de fronteira entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai terá um novo protocolo de cooperação em saúde pública depois que o V Encontro Saúde nas Fronteiras Brasil-Paraguai encerrou seus trabalhos na quarta-feira, 19, em Campo Grande. O evento produziu a chamada Carta de Campo Grande, documento que estabelece encaminhamentos concretos sobre integração de sistemas de dados, calendários de vacinação compartilhados e resposta coordenada a arboviroses — grupo que inclui dengue, zika e chikungunya.

A iniciativa responde a um desafio crônico da região: cidades como Ponta Porã, na fronteira seca com Pedro Juan Caballero, e Corumbá, às margens do rio Paraguai, lidam diariamente com a circulação de pessoas entre os dois lados da divisa, o que torna qualquer surto epidemiológico praticamente impossível de conter sem cooperação bilateral. Quando um lado vive um pico de dengue, o outro sente quase ao mesmo tempo.

O que a Carta de Campo Grande determina

O documento aprovado ao final do encontro define três eixos prioritários. O primeiro é a integração de dados epidemiológicos entre os sistemas de vigilância sanitária do Brasil e do Paraguai, de modo que as secretarias de saúde dos dois países possam identificar surtos antes que eles atravessem a fronteira. O segundo eixo trata da harmonização das campanhas de vacinação, garantindo que comunidades de fronteira não fiquem descobertas por diferenças de calendário entre os países. O terceiro foca na resposta rápida a arboviroses, com protocolos conjuntos para mobilização de equipes e insumos quando houver alerta epidemiológico em qualquer ponto da linha divisória.

A Carta não tem força de tratado, mas funciona como compromisso político entre os gestores de saúde dos dois países e serve de base para que os estados e departamentos fronteiriços possam formalizar acordos operacionais. Em MS, a Secretaria Estadual de Saúde (SES-MS) é a interlocutora direta dos encaminhamentos aprovados.

Por que a fronteira de MS é o epicentro desse debate

Mato Grosso do Sul concentra a maior parte da fronteira terrestre entre Brasil e Paraguai, com mais de 1.100 quilômetros de linha divisória. Ao longo desse trecho estão municípios cujas populações vivem literalmente nos dois lados: trabalhadores que dormem em um país e trabalham no outro, crianças que estudam em uma cidade e moram em outra, pacientes que buscam atendimento onde a fila é menor ou o serviço é gratuito.

Essa dinâmica cria zonas de invisibilidade para os sistemas de saúde nacionais. Um caso de dengue notificado em Ponta Porã pode ter tido origem em Pedro Juan Caballero e vice-versa, mas sem integração de dados os dois lados tratam o surto como fenômeno local. É exatamente essa lacuna que o encontro realizado em Campo Grande buscou fechar.

Próximos passos para as cidades sul-mato-grossenses

Com a Carta de Campo Grande assinada, o desafio agora é operacional. As secretarias municipais de saúde de Ponta Porã, Corumbá, Mundo Novo e demais municípios fronteiriços de MS precisarão adaptar seus fluxos internos para dialogar com as estruturas de saúde paraguaias correspondentes. O governo do estado deverá coordenar essa articulação, definindo prazos e responsabilidades para cada um dos três eixos acordados.

A expectativa dos técnicos que participaram do encontro é que a integração de dados seja o primeiro passo a ser implementado, por demandar menos recursos do que a logística de vacinação conjunta. A temporada de arboviroses — que historicamente se intensifica entre novembro e abril na região fronteiriça — serve de prazo informal para que ao menos os protocolos de resposta rápida estejam funcionando antes do próximo verão.

Para o morador de Ponta Porã ou de Corumbá, o resultado prático esperado é simples: menos surtos atravessando a fronteira sem resposta coordenada e mais chances de ser vacinado independentemente de qual lado da linha a campanha foi organizada.

Fontes: GOVERNO DE MATO GROSSO DO SUL