Guarani-caiouá no debate de MS, candidato do PCO convoca autodemarcações

Daniel Lemes, liderança indígena e candidato do PCO ao governo de MS, usou o primeiro debate televisionado para denunciar violência contra povos originários e defender retomadas de terra.

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No primeiro debate entre candidatos ao governo de Mato Grosso do Sul, realizado na segunda-feira (17) e transmitido pela Morena FM e pelo portal Primeira Página, uma voz saiu do script habitual da política sul-mato-grossense: Daniel Lemes, liderança guarani-caiouá e candidato do Partido da Causa Operária (PCO), colocou a questão indígena no centro do debate e convocou as comunidades do estado a promoverem autodemarcações de terra sem esperar pelo governo federal ou estadual.

Mato Grosso do Sul concentra uma das maiores populações indígenas do Brasil — e também um dos índices mais altos de violência contra esses povos. A questão fundiária na região, especialmente no Cone Sul do estado, onde vivem dezenas de comunidades guarani-caiouá em condições precárias, raramente ocupa espaço central em disputas eleitorais estaduais. A participação de Lemes no debate mudou essa dinâmica, ao menos por uma noite.

Autodemarcação como proposta política

A intervenção mais contundente de Lemes ocorreu no bloco de temas livres, quando ele questionou diretamente o candidato Jefferson Bezerra (Agir) sobre como um eventual governo seu enfrentaria a violência contra indígenas no estado. A resposta de Bezerra — de que trataria os índios "com amor, com carinho" e centrou a fala em problemas de álcool e drogas nas aldeias — abriu espaço para Lemes confrontar o conjunto dos candidatos presentes.

"Podemos perceber nesse debate, comunidade indígena, você que está me assistindo, que nenhum desses candidatos tem compromisso de apaziguar e acabar com a violência com a comunidade indígena. Não há um projeto concreto", afirmou Lemes. Em seguida, lançou o que chamou de convite: "Vamos fazer nossas autodemarcações. Vamos, porque a terra é a vida". A fala foi direcionada às comunidades do Cone Sul e do Pantanal.

Confronto com rivais expõe divergências sobre mobilização indígena

O embate entre Lemes e Bezerra escancarou posições opostas sobre as formas de luta das comunidades indígenas e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Bezerra defendeu explicitamente a repressão a bloqueios de estradas e chamou esse tipo de mobilização de "baderna". Lemes, ao contrário, defendeu as retomadas como instrumento legítimo de pressão pela demarcação.

O candidato do PCO também trouxe ao debate um episódio envolvendo mulheres guarani-caiouá da região de Dourados que foram reprimidas pela polícia durante protesto pelo acesso a água potável. Lemes responsabilizou a Secretaria de Segurança Pública do governo estadual pela violência e criticou deputados que sustentam o governo. Classificou ainda a política indigenista do estado como "racista" e "preconceituosa", em resposta à pergunta do candidato Lucien Rezende (PSOL).

Demarcações e violência indígena no centro do debate sul-mato-grossense

O debate contou com a participação de Delcídio Amaral (PRD), Fábio Trad (PT), Jefferson Bezerra (Agir), João Henrique Catan (Novo), Lucien Rezende (PSOL) e Renato Gomes (DC), além do próprio Lemes. O governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, foi convidado, mas não compareceu ao evento.

Para além do confronto eleitoral, a presença de Lemes colocou em pauta uma realidade que afeta diretamente municípios como Dourados, Caarapó, Amambai e Ponta Porã: a disputa por terras entre fazendeiros e comunidades guarani-caiouá que vivem em áreas de retomada ou em reservas superlotadas, com registros frequentes de assassinatos e conflitos armados. A ausência de demarcações consolidadas — tanto por parte do governo estadual quanto do federal — mantém o ciclo de violência sem perspectiva de resolução próxima.

A candidatura de Lemes, com baixíssima chance eleitoral dentro do cenário competitivo de MS, cumpriu nesse debate uma função que raramente recai sobre candidatos com maior estrutura de campanha: obrigar os demais postulantes ao governo do estado a se posicionarem, publicamente, sobre o que fazem — ou deixam de fazer — pelos povos indígenas de Mato Grosso do Sul.

Fontes: DIÁRIO CAUSA OPERÁRIA