Corumbá reúne 13 cidades do Pantanal para debater trabalho escravo e assistência na fronteira
Encontro 'SUAS em Ação' capacita equipes de assistência social de municípios das regiões Pantanal e Sudoeste de MS nos dias 18 e 19 de agosto.
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Corumbá sediou nesta terça e quarta-feira, 18 e 19 de agosto, um encontro regional que reuniu trabalhadores e gestores da assistência social de 13 municípios das regiões Pantanal e Sudoeste de Mato Grosso do Sul. O evento SUAS em Ação, realizado no Anfiteatro Salomão Baruki, colocou na mesma mesa representantes de Anastácio, Aquidauana, Bela Vista, Bodoquena, Bonito, Caracol, Corumbá, Guia Lopes da Laguna, Jardim, Ladário, Miranda, Nioaque e Porto Murtinho — cidades que compartilham desafios comuns ligados à vulnerabilidade social em territórios de fronteira e áreas pantaneiras.
A iniciativa, promovida pela Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos em parceria com a Prefeitura de Corumbá, vai além da capacitação técnica habitual. A programação incluiu debates sobre temas sensíveis e ainda pouco discutidos na escala municipal da região: o trabalho escravo contemporâneo no Mato Grosso do Sul e os desafios específicos de quem presta assistência social em territórios de fronteira internacional — realidade que diferencia cidades como Corumbá e Porto Murtinho de qualquer outro polo do estado.
Trabalho escravo em pauta no coração do PantanalUm dos momentos de maior impacto na programação de terça-feira foi a palestra sobre o Programa Escravo, Nem Pensar!, apresentada por Rodrigo Teruel, da Repórter Brasil. O tema é especialmente relevante para a região: Mato Grosso do Sul concentra casos de trabalho análogo à escravidão no setor rural, e municípios do Pantanal e do Sudoeste figuram entre os mais expostos a esse tipo de violação, que muitas vezes chega às equipes de assistência social antes de qualquer outra instância do poder público.
A sequência de discussões incluiu ainda uma análise aprofundada sobre a assistência social em regiões de fronteira, conduzida pelo professor doutor Marco Aurélio Machado de Oliveira, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Segundo o secretário municipal de Assistência Social e Cidadania, Alexandre Ramos de Ohara, a especificidade territorial é o ponto de partida obrigatório para qualquer política pública na região. "Falar de assistência social é falar de território", afirmou durante a abertura do encontro, ressaltando que o fortalecimento das equipes e do trabalho em rede é o que garante respostas efetivas às demandas da população local.
Capacitação técnica para quem atende na pontaNa quarta-feira, 19 de agosto, a programação se desdobrou em minicursos simultâneos voltados para os profissionais que atuam diretamente no atendimento. Os módulos abordaram Proteção Social Básica, Proteção Social Especial, Gestão do Trabalho e Educação Permanente, Gestão do SUAS e elaboração de Relatórios Técnicos — conteúdos que, na prática, definem a qualidade dos serviços que chegam à população mais vulnerável de cada cidade.
A Escola do SUAS Mariluce Bittar participou da organização dos conteúdos ao lado das áreas técnicas estaduais. A superintendente de Assistência Social e Direitos Humanos, Ana Karina do Prado Ávila, destacou que o programa busca valorizar o trabalho já desenvolvido pelas equipes municipais, ao mesmo tempo que amplia o repertório técnico de quem está na linha de frente. A diretora-presidente do Procon de Corumbá, Raquel Bryk, que representou o prefeito Gabriel Alves de Oliveira na abertura, reforçou a importância da integração entre estado e municípios para o aprimoramento das políticas públicas na região.
Por que Corumbá como sede faz diferença para o PantanalA escolha de Corumbá como sede não é apenas logística. A cidade é o maior polo urbano da região pantaneira e abriga uma das fronteiras mais ativas do Brasil, com fluxo constante de bolivianos, brasileiros e migrantes de outras nacionalidades — uma realidade que pressiona os serviços de assistência social de forma única no estado. Reunir as equipes de 13 municípios nesse ponto geográfico permite que experiências locais circulem entre profissionais que enfrentam contextos parecidos, mas raramente têm oportunidade de trocar conhecimento de forma estruturada.
Para o Pantanal sul-mato-grossense, o encontro representa uma sinalização do estado de que as especificidades da região — fronteira, isolamento geográfico, vulnerabilidade rural e trabalho escravo — precisam de respostas formativas diferentes das aplicadas ao restante do estado. A continuidade desse tipo de iniciativa, com capacitação descentralizada e conteúdo adaptado ao território, é o que determina se o SUAS de fato funciona igual para quem mora às margens do rio Paraguai e para quem vive na capital.
Fontes: PREFEITURA MUNICIPAL DE CORUMBÁ, SECRETARIA DE ESTADO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL E DOS DIREITOS HUMANOS DE MS