Brasil e Paraguai testam campanha única de vacinação em Ponta Porã e Pedro Juan
Reunião em Campo Grande avança na criação de estratégia compartilhada de vigilância em saúde para cidades de fronteira seca entre os dois países
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Brasil e Paraguai se reuniram em Campo Grande nesta terça e quarta-feira (18 e 19 de junho) para avançar em um acordo de cooperação técnica em saúde que envolve também o Paraná, com foco nas cidades de fronteira onde o mosquito Aedes aegypti não respeita divisa nenhuma. O encontro — a quinta reunião bilateral do gênero — resultou em uma minuta de encaminhamentos com ações, prazos e responsáveis dos dois lados.
A lógica por trás do acordo é simples, mas historicamente ignorada: de nada adianta desinfetar um lado da rua se o outro lado fica para trás. Em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, a linha de fronteira seca é literalmente uma avenida, e o Aedes voa de um país para o outro em questão de metros. Esse cenário impulsionou a construção de uma estratégia conjunta que já saiu do papel ao menos uma vez.
O experimento que virou modeloMaurício Simões, secretário de Saúde de Mato Grosso do Sul, foi direto ao explicar a urgência da iniciativa. "A gente questionou: do que adianta eu combater o vetor da chikungunya, da dengue, que é o Aedes, aqui em Mato Grosso do Sul se, do outro lado da rua, ali em Ponta Porã, eles não estão com a mesma preocupação?", disse ele. A pergunta, feita em tom retórico, resume o argumento central da cooperação.
Para além do discurso, a parceria já produziu um resultado concreto: uma campanha de vacinação simultânea realizada em conjunto em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. O experimento funcionou como prova de conceito e agora serve de base para a proposta mais ambiciosa — uma única estratégia de vacinação, com os dois países imunizando suas populações ao mesmo tempo, segundo o mesmo calendário. "A hora que eu estiver vacinando aqui, ele estará vacinando lá", resumiu Simões.
Uma plataforma de dados que cruza fronteirasO acordo prevê a criação de um sistema unificado de monitoramento epidemiológico entre Brasil e Paraguai — um banco de dados compartilhado que permita identificar surtos, rastrear coberturas vacinais e coordenar respostas antes que uma epidemia de um lado vire epidemia dos dois. "Queremos construir uma estratégia de monitoramento de dados de informações que seja a única para os três", afirmou o secretário, referindo-se ao Brasil, ao Paraguai e à participação do Paraná no acordo.
Os participantes do encontro devem entregar uma minuta formal com ações detalhadas, incluindo responsáveis, prazos, produtos esperados e próximos passos para a implementação da Cooperação Técnica Bilateral Brasil-Paraguai. O escopo vai além da dengue e da chikungunya: a proposta cobre o controle de arboviroses em geral, a qualificação da análise epidemiológica e a preparação para eventos de saúde pública de interesse comum — o que inclui detecção precoce e comunicação imediata entre os governos vizinhos.
Por que Ponta Porã é o epicentro dessa cooperaçãoEntre as cidades sul-mato-grossenses, Ponta Porã concentra os desafios mais evidentes do modelo atual: com quase 100 mil habitantes e uma conurbação urbana contínua com Pedro Juan Caballero, do lado paraguaio, qualquer campanha de saúde que ignore a fronteira nasce incompleta. A cidade historicamente registra altas incidências de dengue em anos epidêmicos, em parte porque os focos do mosquito não conhecem a linha imaginária que separa os dois países.
O mesmo raciocínio vale para outras cidades de fronteira seca em Mato Grosso do Sul, como Mundo Novo, que faz divisa com Salto del Guairá, no Paraguai. A ampliação da cooperação para além de Ponta Porã é uma das perspectivas abertas pelo acordo, que agora depende da formalização dos encaminhamentos gerados no encontro de Campo Grande para ganhar escala. Para os moradores da fronteira, a promessa é concreta: quando o vizinho do outro lado for vacinado, o risco de quem fica aqui também cai.
Fontes: SECRETARIA DE SAÚDE DE MATO GROSSO DO SUL