Erro de 18% na identificação de bovinos ameaça controle sanitário do rebanho em MS
Estudo conduzido em fazenda experimental mostra que cicatrizes e desgaste da marca a fogo geram registros errados de vacinação e reprodução nos rebanhos.
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Uma pesquisa conduzida pela médica-veterinária Janaína Braga, da empresa BE.Animal, revelou que a marcação a fogo aplicada em bovinos apresenta taxa de erro de identificação de até 18% — índice alto o suficiente para comprometer o controle sanitário, reprodutivo e de desempenho de rebanhos inteiros. O estudo foi desenvolvido na Fazenda Orvalho das Flores e está vinculado a um programa nacional de redução gradual dessa prática, que já envolve mais de 500 mil bovinos em 15 estados brasileiros, incluindo Mato Grosso do Sul.
O problema não está apenas no ato de marcar o animal, mas no que acontece com o tempo: cicatrizes mal formadas, crescimento de pelos sobre a numeração e o desgaste natural da pele tornam a leitura da marca difícil ou impossível durante o manejo. O resultado é que o pecuarista associa informações de um animal a outro sem perceber — um erro silencioso que se acumula e distorce todo o histórico do rebanho.
Quando o número errado vira problema sanitárioA consequência mais imediata de uma identificação incorreta não é administrativa — é sanitária. Se a marca de um boi for confundida com a de outro durante o manejo, registros de vacinação, tratamentos com antibióticos, protocolos reprodutivos e dados de ganho de peso ficam atribuídos ao animal errado. "Uma identificação incorreta pode fazer com que o produtor associe a um bovino informações que pertencem a outro, afetando registros de vacinação, tratamentos, reprodução e desempenho", alertou Janaína Braga em entrevista ao programa Giro do Boi. O risco concreto é um animal receber uma dose de vacina duplicada — ou ficar sem a dose — sem que ninguém perceba.
A situação é ainda mais crítica em fazendas que exportam: protocolos de rastreabilidade exigidos por mercados como União Europeia e Estados Unidos dependem de identificação individual confiável. Uma margem de erro de 18% inviabiliza qualquer sistema de rastreio robusto e pode abrir caminho para questionamentos em auditorias internacionais — risco direto para os frigoríficos de Mato Grosso do Sul, que respondem por parcela relevante das exportações brasileiras de carne bovina.
Brincos coloridos no lugar do fogoO programa de redução, formalizado em 2021 pela BE.Animal em parceria com o Grupo ETCO da Unesp e empresas privadas, não defende o fim imediato da marcação a fogo. A proposta é mais pragmática: identificar quais marcas são realmente necessárias e substituir as demais por alternativas como brincos, bottons e tatuagens. Em uma das fazendas participantes, por exemplo, a identificação do período de nascimento dos bezerros — antes feita com ferro quente — passou a ser feita com brincos de cores diferentes, num sistema visual inspirado em semáforo. Simples, barato e legível a distância.
Carla Ferrarini, zootecnista e gerente da Beckhauser, lembra que a marcação a fogo também representa um desafio para os trabalhadores rurais, além do estresse e da dor impostos ao animal. "A marcação é um manejo difícil de executar e pode representar desafios para os trabalhadores", disse ela. Quando feita de forma inadequada, a marca fica ilegível — e o erro de 18% documentado no estudo é, em parte, consequência dessa dificuldade de execução no campo.
O que muda para o pecuarista sul-mato-grossenseMato Grosso do Sul abriga o segundo maior rebanho bovino do Brasil, com cerca de 22 milhões de cabeças distribuídas principalmente no Pantanal, na região de Dourados e no Bolsão. Uma taxa de erro de identificação de 18% aplicada a essa escala representa potencialmente milhões de registros inconsistentes — dados de vacinação, parto e sanidade que não correspondem ao animal real.
A boa notícia é que o programa já está em expansão. A segunda etapa prevê ampliar o número de propriedades participantes e sistematizar o levantamento de quais marcações cada tipo de operação pode dispensar. Para fazendas com maior risco de furto de gado — cenário presente em regiões de fronteira de MS, como Corumbá e Ponta Porã —, a marca da propriedade pode continuar sendo utilizada como medida de segurança, desde que aplicada corretamente. A recomendação dos pesquisadores é clara: não existe solução única. Cada sistema produtivo precisa avaliar sua realidade antes de substituir o ferro quente por qualquer alternativa.
O avanço desse debate no campo sul-mato-grossense chega num momento em que a pressão por rastreabilidade e bem-estar animal cresce nos principais mercados compradores da carne do estado — e em que cada ponto percentual de erro em registros pode custar tanto uma auditoria reprovada quanto um tratamento aplicado no animal errado.
Fontes: BE.ANIMAL, UNESP, CANAL RURAL