NOAA: El Niño pode superar todos os registros desde 1950 ainda em 2026
Agência americana projeta mais de 90% de chance de evento muito forte no fim do ano, com persistência até meados de 2027 e chuvas intensas no Centro-Sul do Brasil.
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O El Niño que já vinha ganhando força ao longo de julho pode se tornar o mais intenso documentado desde que os registros sistemáticos começaram, em 1950. A NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) divulgou nesta quinta-feira (13) novas projeções que elevam para mais de 90% a probabilidade de um evento classificado como muito forte durante a primavera e o verão do Hemisfério Sul — período que abrange exatamente os meses de maior sensibilidade agrícola e hídrica em Mato Grosso do Sul.
O que chama atenção não é apenas a intensidade prevista, mas a duração. Diferentemente de ciclos anteriores, este fenômeno deve atravessar a virada do ano sem arrefecer: a NOAA calcula mais de 80% de chance de o El Niño ainda estar ativo entre março e maio de 2027. Para o agronegócio sul-mato-grossense, que convive diretamente com os extremos climáticos desse fenômeno, o alerta vai muito além de uma temporada de chuvas.
Anomalias recordes já aparecem no PacíficoOs termômetros do Pacífico Equatorial oriental já mostram o que os modelos climáticos estão sinalizando. Em julho, as anomalias de temperatura da superfície do mar superaram +2,0°C — marca que, por si só, já caracteriza um El Niño forte. O índice Niño-3.4, referência global para classificar a intensidade do fenômeno, registrou +1,4°C no mês. Já o Niño-1+2, que monitora a região mais próxima da costa sul-americana, alcançou +2,9°C — um dos valores mais altos já medidos nessa faixa do oceano.
Para o trimestre de outubro a dezembro, quando o fenômeno costuma atingir seu pico sazonal, a NOAA projeta 69% de probabilidade de um evento de magnitude histórica — superando episódios que marcaram décadas de registros. A combinação de aquecimento oceânico persistente e padrões atmosféricos favoráveis está acelerando essa trajetória mais rápido do que o previsto nos modelos do início do ano.
O que muda para Mato Grosso do SulPara o Centro-Oeste e, especificamente, para Mato Grosso do Sul, um El Niño forte historicamente significa chuvas acima da média, especialmente no segundo semestre e nos primeiros meses do ano seguinte. Isso pode beneficiar a recarga de aquíferos e reservatórios, mas também eleva o risco de enchentes, alagamentos em áreas urbanas e perdas pontuais em lavouras por excesso de umidade ou dificuldade de colheita.
O Pantanal, já castigado por cheias históricas nos últimos anos, entra nesse cenário como zona de atenção prioritária. Níveis elevados do Rio Paraguai durante um inverno e uma primavera úmidos podem antecipar o início das cheias e prolongar o isolamento de comunidades ribeirinhas em Corumbá, Miranda e Aquidauana. Produtores da região já acompanham de perto as atualizações da NOAA para calibrar decisões sobre manutenção de rebanhos e infraestrutura.
Safra 2025/26 e o calendário agrícola na miraO plantio de soja em MS costuma começar entre outubro e novembro — justamente quando o El Niño deve estar no seu pico de intensidade. Excesso de chuvas nesse período pode atrasar a semeadura, aumentar a incidência de fungos e complicar a logística em estradas vicinais. Por outro lado, a umidade pode favorecer o estabelecimento inicial das lavouras em regiões que sofrem com veranicos.
Técnicos da Embrapa e das cooperativas do estado já recomendam que produtores acompanhem semanalmente os boletins agrometeorológicos e considerem ajustes no planejamento da safra, especialmente no escalonamento do plantio e na escolha de cultivares com maior tolerância à umidade. A janela de risco se estende até pelo menos maio de 2027, segundo a NOAA — o que significa que a safrinha de milho, colhida entre junho e julho do próximo ano, também está dentro do radar do fenômeno.
O cenário reforça a necessidade de sistemas de alerta precoce eficientes e de políticas estaduais de gestão de riscos climáticos — especialmente num estado cuja economia depende diretamente do que acontece no campo e no Pantanal.
Fontes: NOAA