Alunos do 5º ano superam nível pré-pandemia, mas matemática no ensino médio ainda preocupa
Saeb 2025 avaliou 5,9 milhões de estudantes em 73,7 mil escolas e revela recuperação desigual entre as etapas do ensino básico no Brasil.
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Os anos iniciais do ensino fundamental voltaram a respirar: estudantes do 5º ano de escolas públicas alcançaram, em 2025, médias em língua portuguesa e matemática acima do que registravam antes da pandemia de covid-19 — uma recuperação que organismos internacionais projetavam levar entre 10 e 13 anos. O dado veio do Saeb 2025, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) na última quarta-feira (5 de agosto), e revela um avanço real — mas assimétrico. Quanto mais velhos os alunos, maior o problema.
A avaliação reuniu 5,9 milhões de estudantes distribuídos em 247,7 mil turmas de 73,7 mil escolas por todo o país. Os resultados mostram que o Brasil saiu do buraco mais fundo cavado pela pandemia, mas ainda não chegou onde precisa: no ensino médio, a matemática segue abaixo do nível básico — e abaixo do que era em 2019.
Avanço nas séries iniciais, estagnação no topoNa escala de 0 a 500 usada pelo Saeb, os alunos do 5º ano saltaram de 207,6 para 215,1 pontos em português, e de 218,3 para 227,4 em matemática entre 2023 e 2025. A nota padronizada dessa etapa — que resume o desempenho médio — subiu de 5,9 para 6,2, o maior salto entre todas as fases avaliadas, e atingiu o chamado nível adequado de aprendizagem. É a boa notícia do levantamento.
O cenário muda ao subir de série. No 9º ano do ensino fundamental, a nota padronizada passou de 5,1 para apenas 5,2 — avanço que mantém os alunos no nível básico em ambas as disciplinas. No 3º ano do ensino médio, a situação é mais grave: a matemática, com média de 268,0 pontos, ainda está classificada como abaixo do básico e não recuperou sequer os patamares de 2019. O português avançou de 269,1 para 272,3, mas especialistas alertam que o ritmo é insuficiente para mudar a realidade da etapa.
Matemática no ensino médio: o nó que o Brasil ainda não desatou"Essa melhora foi insuficiente para mudar o nível de aprendizagem da etapa como um todo", avaliou Natália Fregonesi, coordenadora de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação. Para ela, muitos estudantes chegam ao ensino médio carregando defasagens acumuladas desde as séries anteriores, o que transforma essa fase em um gargalo estrutural. A saída, segundo a especialista, passa por priorizar a aprendizagem desde o início da trajetória escolar e aproximar a escola do cotidiano e dos projetos de futuro dos jovens — hoje, a desmotivação no ensino médio é alimentada exatamente pela combinação de lacunas antigas com uma escola desconectada da realidade dos alunos.
Felipe Proto, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, reforça que a matemática exige ação coordenada e de longo prazo. "Avançar nessa área exige prioridade na agenda educacional, continuidade e uma estratégia consistente de implementação das políticas públicas já anunciadas, como o Compromisso Nacional Toda Matemática", disse. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, reconheceu o problema e apontou a formação docente como caminho: "Melhorar a formação continuada dos professores é uma obsessão do Ministério da Educação para que possamos elevar a proficiência em matemática". Barchini lembrou ainda que a Prova Nacional Docente (PND) 2025 mostrou que o país tem professores qualificados na área em número suficiente — o desafio é fazer com que eles de fato cheguem às redes de ensino.
O que os dados significam para alunos de Mato Grosso do SulOs dados do Saeb são desagregados por estado e por escola, o que permite às redes municipais e estaduais de Mato Grosso do Sul identificar onde estão as maiores lacunas. A Secretaria Estadual de Educação (SED-MS) utiliza o Saeb como uma das bases para o cálculo do Ideb — que combina desempenho e fluxo escolar — e para direcionar políticas como formação continuada de professores e programas de recomposição de aprendizagem. Em Campo Grande e no interior do estado, escolas que aderiram ao ensino médio integrado à educação profissional e tecnológica aparecem nos dados da rede estadual com médias ligeiramente superiores às do ensino médio tradicional.
O resultado geral reforça um diagnóstico que educadores sul-mato-grossenses já conhecem: a alfabetização avançou, mas segurar o aluno no trilho do aprendizado até o fim do ensino médio continua sendo o principal desafio. As notas do Saeb 2025 por escola e município estão disponíveis no site do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A próxima edição da avaliação está prevista para 2027.
Fontes: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, INEP