Curta filmado na Reserva Indígena de Dourados celebra raízes Guarani-Kaiowá
Produção 'Che Ypykue – Meu Ancestral', financiada pelo FIP municipal, reúne a atriz Dandara Queiroz e aborda ancestralidade e identidade dos povos originários.
Divulgação
Um curta-metragem gravado dentro da Reserva Indígena de Dourados está trazendo ao audiovisual sul-mato-grossense uma narrativa raramente vista nas telas: a jornada espiritual de uma mulher Guarani-Kaiowá em busca de reconexão com seus ancestrais. A produção "Che Ypykue – Meu Ancestral", financiada pelo Fundo Municipal de Investimentos à Produção Artística e Cultural (FIP), estrela a atriz e modelo indígena Dandara Queiroz, 29 anos, natural de Araçatuba (SP) mas criada em Mato Grosso do Sul, e foi apresentada à imprensa na manhã desta segunda-feira, 3 de agosto de 2026.
Entre os 11 projetos contemplados pelo FIP neste ciclo, o curta se destaca como a única iniciativa voltada exclusivamente à tradição indígena — um fato que, por si só, já diz muito sobre as lacunas históricas na representação cultural dos povos originários no município que abriga uma das maiores populações indígenas urbanas do Brasil. A produção chega em um momento em que o debate sobre diversidade no cinema brasileiro ganhou força, e Dourados ocupa agora um lugar singular nessa conversa.
Som, silêncio e floresta como linguagem cinematográficaA proposta estética de "Che Ypykue" é ambiciosa: conduzir o espectador por uma experiência sensorial ancorada principalmente no som. A narrativa acompanha o sonho de uma mulher indígena que percorre elementos como o vento, o fogo e as vozes ancestrais, culminando em uma Casa de Reza Guarani-Kaiowá. O silêncio, tão presente na espiritualidade dos povos originários, divide com a música o papel de protagonista na construção dramática do filme.
Para o produtor artístico Luan Iturve, a obra transcende a ficção. "Ela não é apenas uma ficção, mas uma verdade dentro desse filme. Há meses o trabalho é feito buscando trazer a originalidade para o curta, trazer a essência do ancestral e essa conexão de alguém que vem de fora para tentar aprender de novo com o território", explicou. A expectativa é que a produção seja finalizada ainda em 2026, passando então para a fase de exibições e festivais.
Dandara Queiroz: quando a origem vira potênciaDandara Queiroz percorreu um caminho que muitos jovens indígenas conhecem bem: características físicas e culturais que o mercado convencional tentou transformar em obstáculos acabaram se tornando seu maior diferencial. Em menos de um ano de carreira na moda, ela estampou a capa da Vogue, tornou-se Miss Mato Grosso do Sul e representou o estado em concurso nacional em 2020, além de acumular trabalhos na televisão e no mercado internacional.
"Quanto que vir daqui, ser daqui, parecer daqui, foi tudo que fez com que eu alcançasse tudo que eu pude alcançar até agora", afirmou a atriz durante o encontro com a imprensa. Ela conta que foi o contato com a cultura indígena que revelou suas próprias capacidades artísticas. "Eu não sabia que eu era artista antes de eu conhecer as minhas origens. A cultura indígena me mostrou que eu sabia cantar, me mostrou que eu sabia atuar, me mostrou que os meus traços eram bonitos e desejados por um universo da moda mundial", relatou. Para ela, interpretar a personagem do curta foi um reencontro íntimo — cada cena carregada de verdade pessoal, não apenas técnica.
Fundo cultural de Dourados na berlinda positivaA secretária municipal de Cultura, Gisela Mello, avaliou o projeto como um marco para o calendário cultural de Dourados. "É muito importante para Dourados uma artista global participando do FIP e temos bastante expectativa para visualizar o trabalho pronto", disse ela, ressaltando que a produção vai além do entretenimento ao registrar práticas espirituais e narrativas dos povos originários que raramente chegam ao cinema convencional.
O FIP representa justamente a aposta do município em descentralizar o investimento cultural e alcançar linguagens e comunidades que o mercado privado costuma ignorar. Ter uma produção indígena financiada com recursos públicos municipais — e estrelada por uma artista com projeção internacional — sinaliza uma mudança de postura institucional relevante para uma cidade como Dourados, que convive cotidianamente com a realidade e as demandas da população Guarani-Kaiowá.
Quando o curta chegar às telas, carregará consigo algo que vai além das imagens gravadas na reserva: a tentativa concreta de fazer com que o audiovisual brasileiro olhe para dentro de Mato Grosso do Sul e reconheça, naquele território, uma fonte legítima de arte, memória e resistência.
Fontes: PREFEITURA DE DOURADOS