Dólar sobe a R$ 5,12 mesmo com trégua EUA-Irã; fatores domésticos pesam

Tensão fiscal e política interna impediram que o alívio geopolítico no Oriente Médio derrubasse a cotação da moeda americana nesta segunda-feira

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A trégua nos conflitos entre Estados Unidos e Irã até derrubou o petróleo e animou mercados globais nesta segunda-feira, 27 de julho, mas não foi suficiente para tirar pressão do real: o dólar encerrou o dia cotado a R$ 5,12, com alta de 0,41% na B3, contrariando a expectativa de alívio no câmbio doméstico. O principal culpado, segundo analistas, está dentro de casa.

O cenário externo chegou a abrir espaço para valorização do real. Com o presidente norte-americano Donald Trump anunciando que os EUA suspenderam temporariamente os ataques para dar mais prazo à diplomacia, o petróleo tipo Brent despencou 8,7%, fechando a US$ 88,36 o barril — menor patamar desde 17 de julho. Em condições normais, a queda no petróleo combinada com redução de tensões geopolíticas tenderia a fortalecer moedas emergentes como o real. Mas o mercado brasileiro leu o dia de outro jeito.

Por que o real não aproveitou o alívio global

A explicação está no peso dos fatores domésticos, especialmente o binômio político-fiscal que segue como pano de fundo nas negociações de câmbio. "Em resumo, o real opera hoje dividido entre o alívio global, com petróleo em queda e trégua no Oriente Médio, e o componente doméstico, político e fiscal, que sustenta alguma demanda por proteção. Dia de digestão e não de tendência definida nos mercados", avaliou Rafael Stephano, advisor sênior da Blue3 Investimentos. A leitura resume bem o comportamento dos operadores: sem clareza sobre o rumo das contas públicas e com eleições no horizonte, o mercado manteve posição defensiva.

Contribuiu para o ambiente o índice do dólar no exterior, que avançou 0,27%, chegando a 101,530, sustentado pela queda menos intensa dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano em relação a outros mercados. Isso deu fôlego ao dólar globalmente, inclusive frente ao real, mesmo com desempenho misto da moeda americana ante outras divisas emergentes.

Pesquisa eleitoral e projeções do BC entram no radar do câmbio

Dois dados divulgados nesta segunda-feira também alimentaram o ruído político-econômico. Uma pesquisa BTG/Nexus mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém 47% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que recuou um ponto, para 43%, em relação ao levantamento de 13 de julho. Cenários eleitorais tendem a influenciar o câmbio quando há incerteza sobre continuidade de políticas econômicas.

Já o Relatório Focus do Banco Central manteve a projeção do dólar para o fim de 2026 em R$ 5,20, enquanto a estimativa para 2027 subiu ligeiramente, de R$ 5,28 para R$ 5,29. O dado indica que o mercado ainda enxerga a moeda americana pressionada no médio prazo — o que deve seguir no radar de importadores, exportadores e consumidores que dependem de produtos dolarizados.

O que vem pela frente — e o impacto para Mato Grosso do Sul

A semana promete ser movimentada nos mercados. Na terça-feira, saem os dados do IPCA-15 de julho, principal prévia da inflação oficial brasileira, com potencial de balançar as expectativas sobre a política de juros. Na quarta-feira, o evento mais aguardado: a decisão do Federal Reserve (Fed) sobre sua taxa básica de juros. Qualquer sinalização de manutenção ou corte pode redefinir o apetite global por emergentes — incluindo o Brasil.

Para Mato Grosso do Sul, o câmbio é uma variável de impacto direto. O estado é um dos maiores exportadores de soja, milho e carne bovina do país, setores que faturem em dólares e que ganham competitividade quando a moeda americana sobe. Por outro lado, insumos agrícolas importados e combustíveis ficam mais caros, pressionando o custo de produção. No comércio de fronteira — especialmente em Ponta Porã e Mundo Novo —, a oscilação cambial também afeta diretamente o fluxo de compradores entre Brasil e Paraguai.

O equilíbrio entre os dois lados da equação — ganhos na exportação versus custos maiores na importação — é o que deverá definir o humor do agronegócio sul-mato-grossense nas próximas semanas, à medida que o mercado digere os dados da inflação e a sinalização do Fed.

Fontes: REUTERS, BANCO CENTRAL DO BRASIL, BLUE3 INVESTIMENTOS