Sem plano e sem insumos: a crise de saúde que endivida famílias no Paraguai

Com apenas 4% do PIB investido em saúde, o país vizinho tem um dos sistemas mais precários da América Latina, forçando pacientes a custear do próprio bolso materiais básicos.

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Uma artesã percorrendo as ruas de Assunção em busca de cânulas, algodão e um respirador para salvar a própria filha. Essa cena, que poderia parecer de outro século, aconteceu recentemente no Paraguai e ilustra com precisão brutal o colapso do sistema público de saúde do país vizinho ao Brasil: 7 em cada 10 paraguaios não têm plano de saúde privado e dependem de uma rede pública cronicamente subfinanciada, onde até insumos básicos faltam nas prateleiras dos hospitais.

O problema ganhou projeção internacional quando a esposa do goleiro Orlando Gill, da seleção paraguaia, revelou nas redes sociais que o marido vendeu uniformes, chuteiras e roupas pessoais para cobrir os custos do tratamento do filho prematuro. O episódio acendeu o debate sobre o que especialistas já apontam há anos: o Paraguai investe apenas 4% do seu PIB em saúde, abaixo do mínimo de 6% recomendado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para garantir cobertura universal.

Família organizou rifa para pagar tratamento hospitalar

O caso de Daniela Benítez, artesã de 62 anos, revela como a crise se manifesta no cotidiano das famílias mais vulneráveis. Sua filha María del Pilar deu entrada em um hospital público da capital paraguaia com sangramento intenso provocado por uma pneumonia associada à tuberculose. A equipe médica não tinha os insumos necessários para atendê-la. Coube à própria família sair às ruas para comprar os materiais — um gasto que superou US$ 800 (cerca de R$ 4.600), valor impossível de arcar de imediato. A solução encontrada foi organizar uma rifa entre vizinhos e conhecidos.

"Os hospitais têm poucos médicos, e os médicos não têm os insumos necessários para oferecer o atendimento adequado. Além disso, estão sobrecarregados pela grande quantidade de horas de trabalho que enfrentam", relatou Daniela. Além da falta de materiais, a família ainda enfrentou atrasos no atendimento e erros administrativos ao longo de todo o processo de internação — uma combinação que, segundo especialistas, é rotineira nos hospitais públicos do país.

Um dos sistemas mais injustos da América Latina, segundo especialistas

Para Patricia Lima, integrante da Associação Latino-Americana de Medicina Social (Alames), o diagnóstico é severo. "O Paraguai tem um dos sistemas de saúde mais injustos de toda a América Latina", afirmou a especialista, que atua em defesa do direito à saúde no país. A avaliação é corroborada pela Anistia Internacional, que coloca o Paraguai entre as nações que menos destinam recursos públicos à saúde por habitante no continente.

O subfinanciamento estrutural tem consequências diretas: filas longas, ausência de medicamentos essenciais, equipamentos sucateados e uma pressão crescente sobre os trabalhadores da saúde, que acumulam turnos extenuantes. Quem não consegue esperar ou não encontra atendimento acaba recorrendo ao setor privado — e entrando em dívida. Do lado do governo, Gustavo Ortiz, diretor de Desenvolvimento de Serviços do Ministério da Saúde paraguaio, reconhece o aumento da demanda, mas minimiza a gravidade, classificando os problemas relatados como episódios "pontuais" e não como falhas estruturais do sistema.

O que esse cenário significa para quem vive na fronteira com MS

Para o leitor de Mato Grosso do Sul, a crise sanitária paraguaia não é apenas uma questão de política externa. A fronteira seca entre cidades como Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero, ou entre Corumbá e Puerto Suárez, é cruzada diariamente por paraguaios que buscam atendimento no Brasil — especialmente no SUS, que, apesar de seus próprios desafios, oferece cobertura universal garantida por lei. Municípios fronteiriços sul-mato-grossenses convivem com uma demanda extra sobre suas unidades de saúde, fruto direto da ausência de uma rede pública funcional do outro lado da divisa.

A situação também afeta brasileiros que residem ou trabalham no Paraguai e podem ser surpreendidos por um sistema que, na prática, transfere o custo do tratamento para o bolso do paciente. Com o fluxo de turistas e compristas em cidades como Ciudad del Este crescendo continuamente, conhecer os limites do sistema de saúde local é uma informação cada vez mais relevante para quem transita pela região de fronteira.

O debate sobre o financiamento público da saúde no Paraguai segue sem solução à vista. Enquanto o governo insiste na narrativa de casos isolados, famílias continuam realizando rifas, vendendo pertences e contraindo dívidas para garantir o que, em teoria, deveria ser um direito fundamental.

Fontes: BBC NEWS, ANISTIA INTERNACIONAL, OPAS