Galípolo: EUA usam Pix como pretexto para justificar tarifas contra o Brasil
Presidente do Banco Central rebateu argumentos americanos em coletiva convocada pelo governo brasileiro após anúncio de tarifas na madrugada de quinta-feira.
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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi categórico na tarde desta quinta-feira, 16 de julho: os argumentos levantados pelo governo dos Estados Unidos contra o Pix como justificativa para a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros não passam de pretexto. A declaração foi feita durante coletiva de imprensa convocada pelo governo federal para dar uma resposta formal ao pacote de tarifas americanas anunciado de madrugada.
A crítica dos EUA ao sistema de pagamentos instantâneo brasileiro integra uma lista de alegações usadas para embasar as novas restrições comerciais. Para Galípolo, porém, a lógica não se sustenta: o Pix compete com meios de pagamento tradicionais como cheque e dinheiro físico, mas em nenhum momento prejudicou o mercado de cartões de crédito — onde operam empresas americanas como Visa e Mastercard.
Crescimento do cartão de crédito contradiz narrativa americanaO dado mais contundente apresentado pelo presidente do BC durante a coletiva foi o desempenho do próprio mercado que os EUA alegam ter sido prejudicado. Desde que o Pix entrou em funcionamento, o volume de transações com cartão de crédito no Brasil cresceu 150%. O número esvazia a tese de que o sistema de pagamentos instantâneo teria bloqueado a entrada ou a expansão de empresas americanas do setor financeiro no país.
"O Pix cumpre funções do dinheiro, substituindo o cheque e o papel-moeda, mas o mercado de cartão de crédito não apenas sobreviveu como expandiu de forma expressiva desde sua implantação", sintetizou Galípolo diante dos jornalistas. A declaração reforçou a posição do governo de que a medida americana não tem fundamento técnico e que o verdadeiro objetivo é criar uma narrativa de reciprocidade para proteger interesses comerciais dos EUA.
Tarifas podem afetar exportações bilionárias do BrasilO impacto potencial das tarifas americanas vai muito além do debate sobre meios de pagamento digitais. Também presente na coletiva, o vice-presidente Geraldo Alckmin sinalizou que o Brasil adotará medidas de reciprocidade no momento considerado adequado e que setores produtivos afetados receberão apoio do governo federal. Outro integrante do painel apontou que 18% das exportações brasileiras para os EUA deverão ser atingidas pelas novas tarifas, o que representa um volume equivalente a cerca de US$ 7 bilhões.
Para Mato Grosso do Sul, estado com forte vocação exportadora, o cenário merece atenção. O agronegócio sul-mato-grossense — responsável por fatias relevantes das vendas externas brasileiras de soja, milho, carne bovina e celulose — pode sentir reflexos indiretos caso as negociações entre Brasília e Washington não avancem. Embora as tarifas atinjam diretamente setores industriais, qualquer deterioração no ambiente comercial bilateral tende a pressionar margens e câmbio, afetando toda a cadeia exportadora do estado.
Brasil busca saída diplomática enquanto avalia retaliaçãoA postura do governo brasileiro até agora tem sido de resposta firme no discurso, mas cautelosa nas ações. Alckmin não detalhou quais medidas de reciprocidade estão sendo consideradas nem quando seriam acionadas, deixando claro que a decisão levará em conta o momento mais estratégico. A coletiva desta quinta funcionou como um sinal de que Brasília não pretende aceitar os argumentos americanos em silêncio — e que o Pix, criado pelo próprio Banco Central para democratizar pagamentos dentro do Brasil, não será tratado como concessão em nenhuma mesa de negociação.
O episódio expõe uma tensão mais ampla nas relações comerciais entre os dois países e coloca em xeque o argumento de que disputas tarifárias têm sempre fundamento técnico. Quando o alvo escolhido pelo governo americano é um sistema de transferências instantâneas que ajudou a bancarizar milhões de brasileiros, fica evidente que a briga é mais política do que econômica — e o Brasil, ao menos no discurso, demonstrou que sabe disso.
Fontes: BANCO CENTRAL DO BRASIL, REUTERS