Por Rúbia Pedra
Natural de Campo Grande, Kamilla Moussa é a filha mais velha de três irmãos e passou a infância no interior do estado, em Cassilândia (MS). Lá, viveu o típico dia a dia de uma criança em cidade pequena, brincando na rua e aproveitando a liberdade. Aos 12 anos, manifestou o desejo de ser médica e, apoiada pelos pais, voltou para a capital para focar nos estudos e seguir seu sonho.
Nessa época, morou na casa de alguns parentes e em pensionato. Kamilla vê essa fase como de muita importância para o seu amadurecimento. “Eu vejo dois lados importantes dessa minha saída cedo demais de casa: consegui realizar meu sonho de me tornar médica e, desde cedo, aprendi a me virar, ser autossuficiente”, conta.
Durante a graduação, escolheu a pediatria quase no final do curso, ao se surpreender em como as crianças eram transparentes em sintomas e diagnósticos. “Nos adultos, eu tinha que somar a história e os sintomas para chegar ao diagnóstico. Na criança não, ela sem falar, sem conseguir descrever o que está sentindo, pelos relatos que às vezes são subjetivos da mãe, junto com o exame, chegava no diagnóstico. Além disso, as crianças respondiam muito rápido ao tratamento, ver a criança melhorando era muito diferente”. Kamilla ainda se especializou em neonatologia, que cuida do nascimento até o 28º dia de vida.
Com a realização do sonho da medicina, Kamilla focou em trabalhar para poder se realizar na vida pessoal. “Em 2009, eu me casei com o Jansen, meu esposo, fizemos tudo como era o nosso sonho e com os nossos recursos, eu e ele trabalhando. Vivemos quatro anos como casal e depois vieram os filhos. Maria Clara nasceu em 2012 e, quando ela tinha nove meses, engravidei do Mateus”.
Com a vida estruturada e a família completa, Kamilla e Jansen ainda sentiam que algo faltava. “Foi aí que entrou Deus na nossa história. Em 2015, começamos a frequentar a igreja. Ali foi um processo de transformação muito grande em mim, como mulher, profissional, mãe. No Jansen, como homem, marido, pai, e em todos nós como família. Fomos entendendo o significado divino que tem no seio de uma família, o elo divino que existe na união de um casal”.
Depois da conversão, Kamilla e a família seguiram em uma caminhada forte na igreja. Até que, em junho de 2021, passaram por uma grande provação. “O Jansen foi pescar com o Mateus e, na volta, eles sofreram um acidente de carro. Meu filho morreu na hora. Ele tinha sete anos. O Jansen ficou muito machucado, fez sete cirurgias. Aí começou um calvário, né? Uma verdadeira prova”.
Ela conta que, nesse momento, se agarrou à fé, e foi o que a sustentou. “A cidade inteira se comoveu e chorou junto comigo. Todos ficaram perplexos de ver a minha força, minha fortaleza, minha fé, que estava sendo construída ali desde 2015. Eu vejo que Deus cuidou de mim com tanto amor. Nesses meus seis anos de conversão e de caminhada cristã, ele realmente me preparou para a hora da prova de fogo, que foi a hora que a gente teve que devolver o Mateus tão cedo”.
Kamilla conta que o maior desafio da sua vida é “seguir vivendo após a morte do meu filho. Não é fácil, tem dias que a saudade aperta, mas eu sei que existe um céu, que meu filho está lá me esperando de braços abertos para eu dar um abraço nele. Tudo isso realmente me transformou na mulher que eu sou hoje”.
Um pouco antes do acidente, Kamilla estava investindo nas redes sociais para falar tanto da medicina, quanto da fé e do seu dia a dia. Depois do acidente, recebeu muitos pedidos de ajuda de pessoas em situações semelhantes. “As pessoas começaram a vir no meu perfil pedindo ajuda. Contavam as histórias delas passando por situações parecidas, em especial de morte na família e sentindo sede desse algo que eu sentia lá em 2015. Então foi um complemento do meu chamado estar na rede social falando disso, também ajudando pessoas”.
Nesse contexto, surgiu a “Comunidade Kamilla Moussa”, para compartilhar mais de seus aprendizados e experiências de transformação. “Eu fiz um compilado e juntei todos os conteúdos que eu já tinha entregue de maneira gratuita, esporádica e solta nesse um ano e meio desde que aconteceu o acidente, e agreguei com informações sobre o caminho que eu fiz pra me tornar a mulher que eu sou hoje. Tudo que eu estudei em todos os cursos que eu fiz, todos os vídeos que eu vi e os exercícios da vida prática que eu fui fazendo”.
Ela explica que os assuntos variam entre autoconhecimento, amadurecimento, espiritualidade, qualidade de vida e amor. “É uma gama de temas que interferem para que a gente possa ser feliz e realizar a nossa missão sendo mulheres desse tempo moderno, em que somos multitarefas, mãe, dona de casa, esposa, estamos no mercado de trabalho. Para dar conta de tudo isso, temos que estar com o mundo interior e exterior equilibrado”. Em novembro, teve início a primeira turma da comunidade e o objetivo é crescê-la.
Para o futuro, Kamilla deseja fazer parte de uma geração de mulheres fortes. “Preparar o conteúdo, pensar nas aulas, estudar, me abastece e ressignifica minha dor. Eu também vou amadurecendo, vou melhorando. É uma via de mão dupla. Nós esperamos sempre ter uma esperança maior, uma missão maior, sublime. Então, ajudar mulheres a encontrar essa missão e caminhar junto comigo é a minha maior oferta para 2023”.
Como conselho, ela cita a frase “Ame mais, abrace mais, pois não sabemos quanto tempo temos para respirar”, que a guiou na recuperação do marido e a acompanha até hoje. “Temos que nos blindar das bobeiras. Nos estressamos com tanta besteirinha e, às vezes, do dia para noite se perde aquela pessoa que você ama. Não sabemos quanto tempo temos para respirar, então amar mais e abraçar mais”, finaliza.