Tia Eva: quem foi a fundadora do primeiro quilombo tombado no Brasil

Eva Maria de Jesus criou a comunidade em Campo Grande, preservando cultura e fé para gerações.

Por -Gabriela Porto

Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva. — Foto: Bruna Costa Dias/Iphan

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Tia Eva, nascida Eva Maria de Jesus, foi uma ex-escravizada que fundou uma comunidade quilombola em Campo Grande (MS) em 1905, se tornando um símbolo de resistência negra. Ela foi reconhecida por seu papel como parteira e benzedeira, além de construir a primeira igreja da comunidade, que celebra a Festa de São Benedito, iniciada em 1919. A comunidade Tia Eva se tornou o primeiro quilombo do Brasil tombado pelo Iphan, reconhecendo sua importância histórica e cultural. Até hoje, cerca de 250 famílias descendentes vivem no local, preservando sua história e tradição.

Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, foi uma mulher negra que marcou a história de Campo Grande (MS). Ex-escravizada, ela conquistou a liberdade no fim do século XIX e, em 1905, fundou uma comunidade que se tornaria um dos mais antigos territórios quilombolas urbanos do país. Hoje, o local reúne cerca de 250 famílias descendentes e se tornou o primeiro quilombo do Brasil tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Considerada uma das mais antigas referências quilombolas urbanas do Brasil, a comunidade foi criada por Eva Maria de Jesus e se consolidou como um importante símbolo de resistência da população negra em Mato Grosso do Sul.

Eva nasceu em Mineiros (GO), foi escravizada e conseguiu a alforria ainda no fim do século XIX. Anos depois, mudou-se para a região onde hoje fica Campo Grande, acompanhada das três filhas.

Na nova terra, comprou um terreno e formou uma comunidade que passou a reunir descendentes e moradores da região. Conhecida pela fé e pelo cuidado com os vizinhos, ela atuava como parteira, benzedeira, curandeira e professora.

Devota de São Benedito, Tia Eva também construiu a primeira igreja da comunidade, que deu origem à atual Igreja de São Benedito. O templo se tornou um dos principais símbolos culturais do local e mantém até hoje uma tradicional festa religiosa organizada pelos descendentes.

Tia Eva morreu em 1926, mas o território fundado por ela continua ativo. Atualmente, centenas de famílias descendentes vivem na comunidade que leva seu nome e preservam a história da fundadora.

Fé e celebração

A Festa de São Benedito é uma das principais tradições da comunidade quilombola Tia Eva, em Campo Grande. O evento celebra a vida e a história de Eva Maria de Jesus e também renova a devoção ao santo.

A celebração começou em 1919. Na época, Tia Eva tinha uma ferida na perna que não cicatrizava havia anos. Com fé em São Benedito, ela fez uma promessa: se fosse curada, construiria uma igreja em homenagem ao santo e realizaria uma festa anual de agradecimento, mantida pelos descendentes.

Após a cura, ela construiu uma igreja de pau a pique dedicada ao santo.

A festa acontece todos os anos em maio, durante a lua cheia, e dura cerca de 10 dias. A programação inclui missas, apresentações culturais, shows e torneios de futebol amador.

Ronaldo Jeferson da Silva, presidente da Associação de Descendentes de Tia Eva, destaca a importância de manter a tradição.

“É importante saber de onde nós viemos, é uma das formas de sabermos para onde vamos, com a festa mantemos viva a história e tradição de um povo.”

A festa é organizada pela própria comunidade com apoio do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e da prefeitura de Campo Grande.

Quilombo tombado

A Comunidade Tia Eva se tornou o primeiro quilombo do Brasil reconhecido oficialmente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dentro de um livro do tombo específico para territórios quilombolas.

O reconhecimento foi oficializado nesta terça-feira (10), durante reunião do conselho do instituto no Rio de Janeiro. O Iphan também publicou no Diário Oficial da União o mapa que delimita a área protegida pelo governo federal.

O título reforça a importância histórica da comunidade e ajuda a preservar a memória e a cultura afro-brasileira em Campo Grande.

 

FONTE: g1 /MS