A Comunidade Tia Eva, em Campo Grande, foi oficialmente tombada pelo Iphan, tornando-se o primeiro quilombo do Brasil a receber essa designação. O processo de reconhecimento envolveu dois anos de trabalho com os moradores para preservar a cultura afro-brasileira e fortalecer a memória local. Com cerca de 250 famílias, descendentes da fundadora Eva Maria de Jesus, a comunidade abriga a Igreja de São Benedito, que passa por restauração e é um símbolo cultural importante. O tombamento é visto como uma luta de resistência e um reconhecimento significativo da história da comunidade.
A Comunidade Tia Eva, localizada em Campo Grande, conquistou um marco histórico: tornou-se o primeiro quilombo do país a ser oficialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão, publicada nesta terça-feira (10) no Diário Oficial da União, cria um livro de tombo específico para territórios quilombolas e delimita a área protegida pelo governo federal, fortalecendo a preservação da memória e da cultura afro-brasileira na capital sul-mato-grossense.
O reconhecimento é fruto de um processo iniciado pela própria comunidade em 2024. Técnicos do Iphan passaram cerca de dois anos levantando referências culturais, histórias e tradições, trabalhando diretamente com os moradores para identificar espaços e práticas que merecem proteção. A oficialização aproxima o Estado da comunidade e estabelece ações de salvaguarda cultural para as futuras gerações.
Hoje, cerca de 250 famílias vivem na Comunidade Tia Eva, todas descendentes da fundadora Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva. Nascida em Mineiros, Goiás, ela foi escravizada e alcançou a alforria no fim do século XIX. Em 1905, mudou-se para a região que se tornaria Campo Grande, comprou um terreno e fundou a comunidade, trabalhando como parteira, benzedeira, curandeira e professora, além de construir a primeira igreja do território, dedicada a São Benedito.
Para Ronaldo Jefferson da Silva, presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, o tombamento simboliza a continuidade de uma história marcada pela resistência.
“É uma luta de resistência de Tia Eva. Com o tombamento agora, damos continuidade a esse legado e temos um território protegido pelo Iphan”, afirmou.
Entre os principais símbolos culturais da comunidade está a Igreja de São Benedito, construída em 1919 e já tombada como patrimônio histórico municipal e estadual. O templo passa por obras de restauração, que fazem parte de um projeto maior que inclui a construção de uma praça, um centro de atendimento comunitário e a reforma do salão de eventos. O investimento é de mais de R$ 2,2 milhões, e a entrega do complexo está prevista para junho de 2027.
Segundo Adanilton Faustino de Souza Júnior, gerente de projetos da Agesul, a prioridade foi a restauração da igreja devido à situação estrutural e às festividades do centenário de Tia Eva, programadas para novembro.
Para a arquiteta e moradora Raíssa Almeida Silva, que participou do levantamento histórico junto ao Iphan, o tombamento representa uma conquista de grande significado.
“É um reconhecimento que a comunidade recebe com muita gratidão. Agora essa história ganha visibilidade e preservação”, destacou.