‘Matar onça ainda é troféu no Pantanal’, diz pesquisador

Conflito com o gado, tradição cultural e medo ainda levam à perseguição do maior predador do Pantanal

Por -Redação

Pantanal abriga hoje a maior densidade de onças-pintadas do planeta. - Foto: Divulgação.

A prática de matar onças-pintadas como símbolo de coragem e prestígio ainda é uma realidade em algumas regiões do Pantanal. O fenômeno alimenta um dos maiores conflitos entre a conservação ambiental e a produção rural no Brasil. A avaliação é do médico veterinário e pesquisador Paul Raad, coordenador do Instituto Impacto, que atua diretamente em propriedades rurais do bioma pantaneiro.

Segundo o pesquisador, essa perseguição aos grandes felinos tem raízes profundas e históricas.

“Há mais de 300 anos existe essa cultura. Muitos pantaneiros dizem que o avô matou cinco onças, guardam a pele como troféu. Matar uma onça sempre foi visto como motivo de orgulho”, afirma Raad.

Ele observa ainda que, em algumas comunidades indígenas, a caça da onça também é parte de rituais e símbolos de liderança.

Conflito com a pecuária e suas consequências

O Pantanal abriga a maior densidade de onças-pintadas do planeta, mas também é uma das regiões onde esses animais mais morrem por ação humana. O principal motivo, segundo Raad, é o conflito com a pecuária.

“O gado representa um prejuízo direto para o produtor. Quando a onça mata um bezerro, ela passa a ser vista como inimiga”, explicou o pesquisador, em entrevista ao programa uruguaio Desayunos Informales.

Embora a onça-pintada seja um predador oportunista, ela não faz do gado parte de sua dieta natural, mas acaba se aproveitando da facilidade de ter uma presa grande e confinada.“É uma escolha óbvia”, comenta Raad. Porém, esse comportamento tem levado a uma retaliação sistemática e à morte ilegal de felinos, mesmo sendo a onça uma espécie protegida por lei.

Soluções inovadoras para convivência entre homem e natureza

Para mitigar esse conflito, o Instituto Impacto desenvolveu um modelo de convivência que aposta no manejo do gado e no uso estratégico de cercas elétricas noturnas. As cercas são instaladas em áreas reduzidas, como um hectare, onde vacas e bezerros são recolhidos à noite, quando as onças estão mais ativas. Durante o dia, as cercas são desligadas e o gado permanece solto.

“O choque não machuca. É um estímulo rápido, com amperagem quase nula, que ensina o animal a não voltar”, explica Raad.

Segundo o pesquisador, monitoramentos com câmeras mostraram que as onças aprendem com a experiência e até transmitem o aprendizado a outros indivíduos, evitando novas tentativas de ataque.

Resultados promissores e mudanças de mentalidade

Os resultados obtidos com a implementação das cercas elétricas têm sido expressivos. Em propriedades que adotaram o sistema, a redução de mortes de bezerros chegou a 83%.

“Um produtor que perdia cerca de 18 mil dólares por ano investiu dois mil dólares na cerca e praticamente zerou o prejuízo. Quando o bolso sente o resultado positivo, a mentalidade começa a mudar”, relata Raad.

Além das fazendas, o Instituto Impacto também desenvolve ações de educação ambiental em comunidades ribeirinhas, com orientação sobre descarte de restos de pesca, manejo de cães e a criação de porcos, que também podem atrair onças.

“Tudo vira presa. Se o ambiente oferece alimento fácil, o conflito aparece”, alerta o pesquisador.

O papel crucial da onça-pintada no ecossistema

Para Paul Raad, proteger a onça-pintada vai além da preservação de uma espécie símbolo do Pantanal. Ele destaca que a onça ocupa uma posição crucial no topo da cadeia alimentar e controla populações de capivaras, veados e jacarés.

“Sem a onça, o ecossistema perde o equilíbrio”, explica.

Raad cita o Uruguai como exemplo de país que perdeu seus grandes predadores e enfrenta sérios problemas ambientais com espécies invasoras.

Mudança de cultura: do troféu à proteção

Embora a tradição de matar onça como troféu ainda exista em algumas regiões, Paul Raad acredita que ela pode ser substituída por uma nova tradição: a de conviver e proteger a onça.

“É um processo lento, cultural, mas possível”, conclui o pesquisador, apontando a necessidade de uma mudança de mentalidade no Pantanal para preservar não apenas a espécie, mas todo o equilíbrio ecológico da região.