Rússia x Ucrânia: Consequências da guerra em Mato Grosso do Sul

Entenda quais são os reflexos causados pela guerra a Mato Grosso do Sul

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O que a guerra da Rússia contra a Ucrânia pode fazer respingar em Mato Grosso do Sul? “Praticamente nada, estamos muito longe e não nos envolvemos nas polêmicas” diriam os desinformados, achando que a situação é apenas geográfica. Os reflexos já estão aí, batendo à nossa porta e todos nós, direta ou indiretamente, vamos senti-las uma hora ou outra.

“O momento é de preocupação e em guerra não existe vencedor, todo mundo perde”, afirmou, preocupado, o Secretário de Produção, Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico e Agricultura Familiar, Jaime Verruck. E ele está mais do que certo. Já podemos sentir os reflexos através da queda das bolsas, inclusive no Brasil, mesmo que não estejamos diretamente envolvidos no conflito. O preço do petróleo disparou, causando aumentos expressivos nos combustíveis e, como resultado, tudo que depende deles. “O preço do petróleo internacional já estava em alta. Com a guerra, o barril pode chegar a US$ 200. Sendo assim, a alta nos combustíveis é outro desafio para a agricultura brasileira”, explica nosso colunista de agronegócio, Renato Borges.

Para o secretário de Estado de Infraestrutura, Eduardo Riedel, as consequências da guerra entre Rússia e a Ucrânia para Mato Grosso do Sul causam ainda mais preocupação, já que o estado tem a economia fortemente baseada na produção agropecuária, e a Rússia um dos principais exportadores de fertilizantes para nós. “O Brasil importa cerca de 84% dos fertilizantes consumidos no país, como uma grande potência agrícola, e a Rússia detém um percentual alto dessas exportações. No momento em que a Rússia suspende a exportação de fertilizantes, começamos a ter uma maior preocupação em relação às próxima safras. Claro que ainda é cedo, mas tenho convicção de que o Ministério da Agricultura está trabalhando muito forte nisso”, comenta Riedel.

Para tentar minimizar a possível falta de fertilizantes, o governo retomou o Plano Nacional de Fertilizantes, que vem sendo estudado desde dezembro de 2020 e busca alternativas para suprir a demanda. O compromisso é de, até 2050, reduzir de 85% para 45% a dependência de importações – mesmo que a demanda venha a dobrar de tamanho. Mas não será uma solução a curto prazo. Apesar do Brasil ter imensas reservas de potássio na região da Amazônia que poderiam abastecer o país por cerca de 200 anos, segundo especialistas, a exploração é complicada e esbarra em leis ambientais, por estarem em áreas de preservação. Além disso, também se encontram em terras indígenas, o que demandaria mudanças na legislação para que a reserva fosse explorada.

E existem mais entraves. A guerra começou logo após o presidente Jair Bolsonaro ter anunciado a retomada das atividades da UFN3 – a unidade de fertilizantes nitrogenados, sediada em Três Lagoas, e recém-adquirida pelo grupo russo Acron. Abandonada pela Petrobrás há alguns anos, a fábrica teria as obras retomadas em julho. Mas, e agora? Ninguém ainda sabe o seu destino. Com a unidade em franca atividade, o Brasil dependeria menos da importação de fertilizantes e os produtores locais poderiam pagar bem menos por eles, barateando o custo da produção e, consequentemente, dos alimentos.

Rebanho atingido

O presidente da Aprosoja - Associação de Produtores de Soja e Milho do Brasil, Antônio Galvan, afirmou que o leste europeu, onde se localiza a Ucrânia, é fornecedor de quase 100% dos fertilizantes que serão utilizados na safra de soja 2022/2023, com início a partir do último trimestre deste ano, prejudicando o plantio dessas culturas. Como resultado, com menos farelo de soja e milho, a pecuária brasileira também seria atingida com a forçada mudança de hábitos alimentares nos rebanhos.

O efeito disso tudo, reflete não só no encarecimento dos produtos que saem das lavouras e chegam à mesa do consumidor, como também na falta desses alimentos, o que seria mais grave.

A Rússia anunciou que o Brasil não está na lista de países que já sofrem com sanções soviéticas e, portanto, poderá continuar importando fertilizantes. Só que com as barreiras comerciais e os portos russos praticamente bloqueados, não há navios chegando por lá. Sendo assim, não há como trazer o produto. Então, até que a guerra termine e tudo volte ao normal, nossas alternativas são escassas.

Até aí, estamos falando de importações, mas e as exportações? Aqui no estado, temos dois frigoríficos da JBS que exportam carne bovina para a Rússia, um em Naviraí e o outro em Três Lagoas. Nos últimos anos, foram cerca de 150 toneladas de carne para lá, ou seja, em torno de R$ 2,5 bilhões de faturamento. Com o fechamento dos portos russos, esta seria apenas mais uma parte do prejuízo, que pode afetar diretamente Mato Grosso do Sul.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse numa entrevista para a CNN, recentemente, que “não existe motivo para pânico e não teremos problemas em relação aos alimentos, pelo tamanho da nossa agricultura”. Ela afirmou ainda que, mesmo com 90% do nosso potássio, que é extremamente importante para a produção de fertilizantes, sendo importado, não iremos enfrentar nenhum tipo de falta, já que, de acordo com o setor privado, ainda temos um estoque de passagem até outubro. “Mesmo assim, iremos procurar outros fornecedores de potássio, como o Canadá, onde estivemos recentemente, e abrir caminho para negociações”, confirmou Tereza Cristina.

Para o economista Normann Kalmmus, colunista da CG City, é importante estabelecer que não há forma de prever como esse conflito vai se desenrolar, porque os interesses são enormes de lado a lado. “Se não se pode prever o que acontecerá no campo de batalha, é ainda mais difícil afirmar o que acontecerá especificamente aqui”, ressalta. Em linhas gerais, sabemos que celulose, carne e soja, incluindo o farelo, são os produtos mais importantes da pauta de exportações de MS para Rússia e Ucrânia. Para este último, também exportamos açúcar em volumes consideráveis. Na opinião do economista, são produtos essenciais e que, necessariamente, continuarão a ser exportados, considerando que não há produção local suficiente.

Por outro lado, é bastante provável que a continuidade do conflito gere altas nos preços internacionais desses produtos, além da própria logística, ainda mais afetada do que já foi nesses dois anos de pandemia. Normann também acredita que a posição de neutralidade quanto a sanções adicionais, defendida pelo Itamaraty, pode trazer bons frutos para MS. “Em outras palavras, se houver algum tipo de restrição às exportações de fertilizantes e defensivos, será natural que essas vendas sejam feitas a países que, como o Brasil, possam exportar bens essenciais e que não se tenham posicionado de forma antagônica às partes”, finaliza o economista.

Pão e pizza mais caros

Outra consequência para nós, brasileiros, é o preço do pão francês, que deve encarecer por causa do conflito. A Rússia é o maior exportador de trigo do mundo e a Ucrânia está entre os quatro maiores em embarques da commodity. Juntos, os dois países respondem por cerca de 30% das exportações mundiais de trigo. O Brasil compra pouco trigo da Rússia - no ano passado, foram apenas 28 mil toneladas. A maior parte do que consumimos vem da Argentina, mas como o trigo é referenciado no mercado internacional, se subir lá fora, também subirá o preço que pagamos aos nossos hermanos. Aí ficarão mais caros o pão, a pizza, bolachas, biscoitos e tudo mais que leva farinha de trigo.

Então, se você acha que não seremos afetados porque estamos longe, passe na padaria ou na pizzaria daqui mais alguns dias e me diga como estão os preços.

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