Natalie Pavan: a história da fundadora da MyCookies
Fundadora da MyCookies, conta como saiu da venda de 30 biscoitos por dia para mais de 300 mil em 60 lojas pelo país.
Por Ogg Ibrahim
“Duvido que você faça um cookie melhor que esse?”. Foi essa frase do personal Paulo Ifran, que deu início a uma jornada de sucesso, construí- da nos últimos sete anos.
Paulo e Natalie almoçavam em um shopping de Campo Grande e decidiram, como sobremesa, comer cookies em uma cafeteria. Foi aí que ele pronunciou o desafio, em tom de brincadeira. Aquilo foi levado tão a sério, que o negócio virou uma franquia com 60 unidades pelo país e um faturamento que já supera R$ 2 milhões anuais.
Para chegar ao sucesso, não foram poucos os percalços nem pequenas as desmotivações. Natalie conta que já ouviu a frase “Você vai bancar a operação em um shopping vendendo cookies a R$ 3,00?” e quase desistiu. Mas algo dentro dela dizia que aquilo poderia ser bem maior. A intuição a levou a um pata- mar que ela mesma jamais sonhou estar. E para esta empreendedora o céu é o limite. Estrelado com cookies, claro!
Natalie Pavan: Exatamente! Eramos recém-formados, recém casados, novos, grana curta, 24 anos na época, e era tudo muito contadinho. Eu lembro que a gente recebia o salário e dizia “Vamos almoçar no shopping?”. E, de sobremesa, ele queria um cookie de uma determinada marca. Só que pra gente era um valor alto e ele não queria apenas um, queria dois. Na época era 8, 9 reais o que ele queria comer. E pra gente era pesado. Eu falava assim pra ele: “Eu vou fazer um pra você”. Ele falou, “Duvido que você faça um cookie melhor que esse”. Rapaz, nunca desafie uma mulher! Eu falei, “Ah, é? Então você vai ver”. Eu fui pra casa, peguei algumas receitas, comecei a estudar. Demorei 2 anos pra chegar nessa receita. Quando eu cheguei na massa ideal, que era um sabor muito bom, comecei a rechear, “abrasileirar” os cookies. E aí eu tive a ideia - a gente teve a ideia - de começar a vender na frente das escolas. Era uma vibe de foodbike, mas eu não tinha grana, zero grana.
Ogg Ibrahim: Como nasceu a MyCookies? Começou com um desafio, né?
OI: Como era essa produção caseira
NP: Eu fazia na minha cozinha em uma quantidade mínima. Quando comecei, eu era gerente administrativa de uma empresa. Tinha uma rotina cansativa, porque eu trabalhava muito durante o dia e tenho um filho autista que demanda muita atenção. Eu fazia os cookies à noite, quando chegava do trabalho, enquanto ele dormia. No dia seguinte, acordava umas duas horas mais cedo, antes de entrar no trabalho, e assava pra ficar bem fresquinho, empacotava e levava pro rapaz que vendia pra mim na frente das escolas
OI: E de onde saiu o nome
NP: Foi numa reunião de família, meu pai, meus irmãos, todo mundo ali. Falei: “Gente, vou começar a vender esses cookies. Vamos ver um nome?”. Aí começaram a jogar na roda, uma discussão de família, um evento. E foi o meu pai quem falou “MyCookies!”. É um nome que não precisa explicar muit
OI: Você vendia em várias escolas ou em uma só?
NP: Em uma só. Mas era muito rápido, muito irrisório, tipo 20 cookies por dia. Nos primeiros dias eram 20 unidades, de repente a gente passou a vender 30. Aí pensei “E se eu vender por 8 horas direto? Por 10 horas direto? Quanto que eu não vou faturar?”. Fui num supermercado tentar negociar um espaço pra pagar dali 30 dias. Eu lembro, até hoje, que sentei lá e falei que eu queria abrir um negócio de cookies. A pessoa falou, “Você tem a foto do balcão, do projeto?”, e eu não tinha nada (risos). Eu tinha na minha cabeça, era muito claro. Eu falei: “Posso pagar daqui 30 dias?”. Ela disse: “Não, não é assim, tem que pagar antecipado”. Aí eu disse “Vamos fazer!”, aí ela “Tá bom”
OI: Você já tinha ideia do que fazer
NP: Não (risos)! Eu me lembro que fui numa marcenaria e pedi para fazer um balcão pra mim. E na minha cabeça era só o balcão, sabe, eu não tinha uma expertise ainda. Pedi para ele parcelar em 3 vezes, sem juros, no cheque, sem entrada, 30, 60 e 90. Eu lembro certinho dele ter falado assim pra mim, “Moça, eu nem te conheço”, aí eu falei “Mas você ain- da vai ouvir falar muito de mim!”. Comprei um freezer usado num site de equipamentos, um forninho residencial elétrico (que assava 8 cookies por vez, o máximo que cabia) e uma estufa de salgado. Era o que a gente tinha, começamos dessa forma. No primeiro mês consegui pagar o aluguel, pagar um funcionário que ficava lá, pagar todas as parcelas do que eu comprei e ainda sobrou um dinheirinh
OI: E dali você deu um salto gigantesco que foi ir para um shopping?
NP: Exatamente! Eu não tinha ainda muita noção do que era entrar num shopping realmente, fui muito na cara, na coragem e na vontade de fazer acontecer. O shopping é outra vibe, é preciso apresentar projeto elétrico, precisa ter uma aprovação, uma infinidade de coisas, isso pra ter um quiosque. Hoje a gente já tem tudo, mas na época eu fui muito inocente. Eu lembro que falaram, “E o projeto?”. “Que projeto?” Aí eu voltei no marceneiro e falei “Vamos desenhar um projeto? Eu vou falar o que tá na minha cabeça” (risos). Ele sentou e eu comecei a digitar no Google “quiosque chique”, “quiosque luxo”, pra ver as referências. Eu falava, esse aqui a gente aproveita, esse não, desenhei daquele jeito, pegando parte de uma, parte de outra
OI: E como foi a experiência?
NP: Eu me lembro que a gente ficou a madrugada inteira montando aquele quiosque, aquela expectativa, eu feliz pra caramba. Saímos do shopping nove da manhã, foi o tempo de ir para casa e voltar, porque eu queria estar na inauguração. Eu estava acabada por dentro, mas muito feliz com aquela fila de gente e a galera comprando. Aí, eu me lembro como se fosse ontem, uma mulher do quiosque vizinho perguntou: “O que você vende?”. Eu falei “Cookies artesanais, recheados, assados na hora, quer provar?” Na época os cookies eram 3 reais, ela falou assim, “Você acha que você vai bancar uma operação de shopping vendendo cookies a 3 reais?”. Ali meu coração ficou despedaçado, meu olho encheu de lágrima. Mas eu tô contando essa história pra dizer que, no meio do caminho, muita gente vai duvidar de você, muita gente vai plantar essa dúvida dentro do seu coração, vai fazer com que você queira desistir. Aquilo me destruiu e eu comecei a duvidar de mim
OI: E conseguiu pagar as contas?
NP: Nossos cookies, na época, custavam 3 reais. A gente era muito focado no volume, eu queria atingir o maior número de pessoas. Saímos de 8 cookies por fornada pra 120 cookies a cada 15 minutos, porque era o que o forno comportava. Nessa época eu já não produzia sozinha. A gente abriu uma cozinha pra acelerar a produção e fazíamos mil cookies por dia, era o ápice, mas muito manual. Tinha aquelas batedeiras planetárias, eu tinha umas 10 que ficava uma do lado da outra, tudo batendo. Uma queimava, eu tinha que correr atrás de outra. Eu não tirava um lucro pra mim. Ainda continuei durante 1 ano trabalhando no meu outro emprego e conciliava os dois, porque eu sobrevivia desse outro emprego.
OI: Dois anos depois você começou a abrir as franquias para o Brasil inteiro. Hoje são 60 unidades? E onde estão?
NP: São 60 e várias outras pra inaugurar. Eu quero baer 100 unidades nesse ano e estou trabalhando para isso, quase dobrar a rede. Minhas mesmo, só duas, daqui de Campo Grande. Estamos no Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Brasília, Goiás, Santa Catarina e São Luís do Maranhão. Inauguramos recentemente em Floripa e BH, mais 5 unidades previstas e muitos contratos para serem assinados.
OI: E qual é a produção da MyCookies hoje? Você saiu de mil por dia pra quanto?
NP: Hoje a gente produz uma média de 15 mil cookies/dia, 300 a 400 mil cookies/mês. Nossa fábrica tem uma capacidade muito maior, para produzir 3 milhões, e estamos correndo pra isso. Quero estar na capacidade máxima da fábrica logo logo.
OI: E para os franqueados? Eles têm que fabricar, produzir a massa do cookie hoje ou você faz aqui e manda pronto?
NP: É uma das vantagens da franquia hoje. Você tem zero de processo produtivo dentro da sua unidade de franquia. Eu mando pronto - a gente envia em caixas, congelados a menos 20°. Hoje temos quase 20 sabores de cookies e a gente envia todos prontos com os complementos como caldas, recheios, etc. Assim conseguimos manter o padrão em tudo: nos recheios, nos cookies, nas caldas, em tudo.
OI: Qual o faturamento da MyCookies hoje?
NP: Vou falar da rede toda. No ano passado, R$ 22 milhões com todas as unidades. A gente espera esse ano dobrar esse número, não só porque vamos aumentar o número de franquias, mas também porque esperamos que esse ano seja melhor.
NP: Eu tive, muitas, de logística, de falar “Por favor, leva meu produto junto com o seu”. Eu lembro muito certinho de uma indústria aqui de Campo Grande, de sentar e pedir pra levar meu cookie - já que também era um produto congelado, tinha a mesma rota, mas o dono: “Puxa, pra mim não interessa”. Tempos atrás eu o encontrei e ele lembrou dessa história, constrangido. “Poxa, naquela época nem acreditei no seu negócio!”. Mas vida que segue. Eu não fico me lamentando, mas sim, eu já tive muitas portas batidas na minha cara.
OI: Você teve muita porta batida na cara, no começo?
OI: A MyCookies só vai produzir cookies ou tem algum pro- duto que pode lançar futuramente? Adianta pra gente.
NP: A gente já tá com um pezinho ali nos brownies, que tem tudo a ver, mas estamos pra construir a nossa fábrica de sorvetes também, já que sorvete e cookies super combinam. A nossa ideia é entrar em supermercados, em prateleiras, tem muita coisa já pronta aí pra acontecer. A gente vai realmente ser um omnichannel - franquia, mercado, um B2B, hoje essa é a vibe, é chegar no consumidor final, é estar presente.
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